Cos'è?



martedì 22 dicembre 2009

O presidente que quebrou dois dentes

A época do ano é o começo de inverno, no mês de dezembro em uma tarde de domingo. Logo pela manhã daquele mesmo dia, o então Senhor Presidente é lembrado por um de seus assessores­­- sim, aquele que nunca se esquece de nenhum dos afazeres de Vossa Excelência- sobre o comício de seu partido no horário vespertino. O Presidente faz cara de tédio para o Assessor, que apenas olha para o chão, sem nada dizer. “E que culpa tenho eu se ele é um homem público e se o partido precisa do apoio dele? Precisa me olhar deste jeito?”, pensa o Assessor, que tenta conter uma pequena lágrima a saltar do olho esquerdo, mas como não consegue, decide então, se retirar de corpo inteiro.
Rapidamente, a manhã passa no Palácio Presidencial. Como é domingo, dia santo para quase todos os mortais cristãos, o Presidente decide passar àquelas poucas horas privadas na sala de estar do Palácio, a arrumar soldadinho por soldadinho da sua coleção de miniaturas. Os pequenos homenzinhos são colocados estrategicamente na maquete que ocupa quase toda uma mesa grande, ao mesmo tempo em que vão formando uma enorme frente de batalha.
- Atacar!!!, grita o Presidente, que tem entre os dedos o homenzinho general, situado à frente de toda a tropa.
A Primeira Dama, que está na sala ao lado, observa o corpo do marido pendurado por sobre a mesa, a brincar com seus bonecos. É claro que ela acha toda aquela coleção uma grande baboseira, mas pelo menos ali é onde o seu esposo pode esquecer por alguns instantes toda a pressão sofrida diariamente pela imprensa, pelos inimigos políticos e pelo povo. Resolve voltar sua atenção para a revista de moda, em que há uma reportagem sobre ela elogiando sua elegância em saber combinar na medida certa o sapato com a bolsa. O Presidente, que em momento algum percebeu o olhar da mulher, termina de posicionar todos os homenzinhos (inclusive os inimigos) e fica satisfeito com o resultado. Dá uma olhada ao redor da sala e lembra-se que a coleção de astronautas e alienígenas também está precisando entrar em ordem, mas já não há mais tempo para isto. Entra o Assessor que conteve as lágrimas e anuncia o almoço.
Agora, o Presidente e a sua comitiva estão a caminho da Praça Central, onde se realizará o comício. Na verdade, o comício já se tinha iniciado há pouco mais de uma hora, mas como a Primeira Dama não entrava em acordo direto com a sua personal stylist a respeito do casaco adequado para a ocasião, o atraso do principal membro do partido era evidente. “Você é o presidente, você pode se atrasar”, sempre dizia ela ao marido em situações semelhantes. Porém o Assessor, que nunca se esquecia de nada relacionado ao presidente, achava que tal comentário minimizava sua função. “Se é assim, por que estou a servir este memorável homem? Ora esta, se sou eu que o lembro de cada açãozinha dele durante o dia...”, pensava ele enquanto mais uma vez, a lágrima (desta vez do lado direito do olho) tentava saltar-lhe às vistas.
O carro principal estaciona no lugar indicado e, subitamente, vários homens vestidos de preto cercam ainda mais o Presidente: são seus seguranças. Ele caminha com dificuldade por entre aquela multidão: homens, mulheres, crianças, jovens e velhos, além de jornalistas e policiais. Como sempre, ele, o Presidente, o homem mais importante de todo o Estado, o representante-mor do país, o político com o cargo mais alto, o colecionador de miniaturas é o centro de toda a atenção.
A multidão se agita ainda mais com a sua presença; o zum-zum-zum de vozes aumenta gradualmente, a movimentação de corpos torna-se mais intensa, os flashs das câmeras são muito mais constantes e rápidos... Querem tocá-lo, vê-lo, fazerem perguntas, fotografá-lo, filmá-lo, aplaudi-lo e ... agredi-lo! Um objeto é lançado contra o Presidente, atingindo-o no rosto, tingindo-lhe a face, partindo-lhe a boca, arrancando-lhe dois dentes.
Tudo é muito rápido e apenas os que estão mais próximos da Comitiva Presidencial notam com extrema rapidez, o que acabara de acontecer. Obviamente, inclui-se aí os jornalistas, sempre atentos à qualquer movimento do Presidente da República (o que causa certos ciúmes no Assessor que nunca se esquece de nada quando o assunto é o Presidente) e suas câmeras e microfones flagram e narram tudo o que houve. Os homens de negro investem rapidamente para o homem mais importante do Estado e o cobrem momentaneamente com seus corpos negros, tal como urubus na carniça, ao mesmo tempo em que policiais tentam encontrar o agressor no meio da multidão.
De volta ao carro, o Assessor que antes tentava conter lágrimas em seus próprios olhos, agora as deixa rolarem livremente. Está em prantos no banco da frente enquanto a Primeira Dama, que segue no carro de trás, já pensa nos comentários que acabaram de surgir no rádio e na internet e que irão surgir brevemente nas outras mídias. “Mais um escândalo!” é a frase que lhe passa pela cabeça naquele momento e que ali continua até chegarem ao hospital.
A quantidade de sangue que escorre da boca do Presidente e as lágrimas que saem dos olhos do Assessor é a mesma: enorme! O Presidente é levado imediatamente para um atendimento preferencial e exclusivo. Já o seu Assessor, como não o deixam passar da sala de visitas, fica aos soluços a reclamar para todas às enfermeiras que passam:
- Eu sou o principal assessor dele, estão me ouvindo? Eu nunca me esqueço de nenhum afazer do Presidente, entenderam?
-Meu senhor, o Senhor Presidente está a tirar radiografias e a fazer curativos e outros exames e ninguém pode acompanhá-lo, ou você acha que também não tive que impedir uma cambada de repórteres e curiosos a entrarem aqui?, responde uma das enfermeiras.
-Mas eu sou o assessor dele, A-S-S-E-S-S-O-R, está me entendendo? Eu nunca me esqueço de nada relativo a ele e se eu não puder acompanhá-lo, como poderei preparar as atividades para a próxima agenda?, continua a gritar o Assessor, mas a enfermeira já vai bem longe pelo corredor.
À noite em todos os noticiários nacionais e pela manhã em todos os outros países que não tem o mesmo fuso-horário, a manchete em letras garrafais é:
“Presidente quebra dois dentes”.
Nada que alarmasse a população, é claro, já que havia tempos que nos países considerados democráticos, poucos idolatravam fanaticamente o chefe de Estado. Desta forma, o seu estado de saúde causa apenas curiosidade na grande maioria, que prefere preocupar-se com suas ações diretas na política e na economia, além de também lhes interessar o último resultado do placar dos esportes.
-Dois dentes?, dizem uns, Pois olha que eu já vi gente que quebrou a dentadura inteira em comícios, quando tentava fazer alguma manifestação pública e foi atingido por socos, chutes e objetos e que nem por isto, virou notícia mundial.
- Dois dentes!, resmunga a Primeira Dama, ao comentar o acontecido com a sua personal stylist. Se com toda aquela proteção conseguem arrancar dois dentes do meu marido, com certeza podem conseguir arrancá-lo do poder! Temos que tomar cuidado...
-Dois dentes, dois dentes!!!!, insiste em berrar a plenos pulmões o Assessor que nunca se esquecia de nada. Sua indignação é grande, sua dor, maior ainda. Está a anotar freneticamente em um pedaço de papel todos os próximos passos do Presidente e a reorganizar os que já estavam prontos. Dois dentes, dois dentes...
O Presidente deixa o hospital apenas dois dias depois, quando se encaminha para a sua residência. Seu rosto está repleto de curativos, mas no lugar onde faltaram dois dentes, nada mais falta. “É isto o que ocorre quando se quer apoiar os colegas de partido e se misturar à massa... Me destroçam dois dentes!”, pensa o presidente que quebrou dois dentes e que está novamente a debruçar-se sobre uma das mesas da sala de estar para pôr em ordem a sua coleção de miniaturas espaciais.

domenica 6 dicembre 2009

O castelo de Rodiv

Era um lugar muito bonito formado por longas e verdes planícies. Verde que variava em muitas intensidades: claro, escuro, musgo, oliva, lima e outras mais. Mas naquele local havia também folhagens e flores em vermelho, combinadas com azuis, rosas, amarelos, marrons, brancos e lilases. Uma parte do bosque era constituída de um imenso fundo negro, devido à proximidade das árvores e arbustos. Apenas em raros momentos, a negritude era quebrada com fios de luzes vindas do céu. Este, na maior parte do ano era cinza, mas não de um cinza que anuncia tempestades. Era um cinza sutil, quase apagado, que de longe, lembrava apenas um dia triste e nada mais. Sorria apenas no auge da primavera, quando mostrava um pouco do seu sol.
E nesta terra de bosques escuros e vegetações coloridas, havia as ruínas de um castelo. Apenas uma parte de toda a muralha que o cercava ainda estava de pé. Por sorte, o pesado portão com grossas correntes de ferro ainda compunha o ambiente, o que levava muitos viajantes a acharem que a construção estava intacta em sua totalidade. Mas nada lembrava o que o local fora em outros tantos séculos atrás: propriedade de nobres, que por gerações, ofereciam banquetes e bailes à outros tão nobres quanto eles, e que eram protegidos por um batalhão de soldados.
Esta longa linhagem da nobreza assinava como último nome Rodiv. Por quase 300 anos, este foi um sobrenome temido na região, principalmente pelas classes baixas. Por todo este tempo, nunca se ouviu falar de um Rodiv que não tenha humilhado e castigado quem ousasse não lhes seguir as ordens; nunca se ouviu falar de um Rodiv que não tenha morrido de forma trágica. Mas a partir de meados do século XVIII isto mudou. O casamento entre Phillip Rodiv e Rutsy Borsosy permitiu com que os próximos descendentes tivessem muitas das boas características dos Borsosy (e também, da boa sorte) e nenhuma outra tragédia jamais voltou a acontecer.
O ano agora era o de 1899. As muitas batalhas na região pela demarcação de fronteiras havia expulsado não só a população local, como também, muitos dos Rodiv que habitavam o castelo. Agora que a construção demonstrava sinais de derrota e das lutas que houve ali em outros tempos, apenas um Rodiv- o último da linhagem- insistia em tomar aquele castelo como moradia. Seu nome era Nikolas e até o momento, contava com 67 anos. Casou-se apenas uma vez, sem nunca ter tido filhos. Seu casamento fora um fracasso, pois a sua esposa o abandonou dois anos depois, ao fugir com um marinheiro russo. Isto o fez buscar refúgio e abrigo definitivo no antigo castelo, que fora abandonado por seus pais, anos antes. Desde então, Nikolas Rodiv era o único morador e proprietário do castelo.
Por todos aqueles anos, Nikolas Rodiv nunca mais foi visto a vagar solitário por nenhuma rua da cidade mais próxima, como costumava fazer em seus tempos de solteiro e nem em nenhum outro lugar público. Dia a dia, mês a mês, ano a ano, ele passou apenas a vagar pelos quartos e salas do castelo, sem nunca ir além de onde se encontrava o pesado portão. A vida passou a ser vivida dentro daquele oco e sombrio espaço demarcado por grandes e cinzas tijolos. Nikolas Rodiv apenas passava a maioria de seu tempo em frente a alguma tela e seus pincéis. Ali pintava paisagens, vilas e mulheres. Mulheres.... Como Nikolas Rodiv as adorava! Fazia seus traços e curvas com perfeição, sem nunca exagerar em nenhum detalhe. Dava-lhes mistério, ousadia, paixão. As mulheres de suas telas nunca tinham nada menos do que isto.
Seu criado, Leonnard, aos 60 anos, era a única pessoa que se dispunha a servir Nikolas Rodiv, no castelo. Mas por ordens de seu patrão, ele ia ao local a cada dois dias, quando trazia mantimentos, telas em branco, tintas e o que mais lhe tivesse sido pedido. A cozinha, a sala que servia de ateliê, o quarto de Nikolas Rodiv, além de um dos quartos de hóspedes (o maior) eram as únicas exigências para que fosse feita a limpeza. Nos exatos 35 anos em que Leonnard servia Nikolas Rodiv, ele sempre achou perigosa a ideia do patrão em aceitar certos viajantes para uma estada. Porém, em sua humilde aceitação de criado que apenas serve o seu senhor, nunca se ousou fazer qualquer tipo de comentário a respeito.
Por um longo tempo, nunca chegou ao conhecimento de Leonnard nenhum comentário a respeito de qualquer hóspede de Nikolas Rodiv. Nos dias de faxina, Leonnard até já chegara a ver alguns: homens jovens ou velhos, acompanhados de suas senhoras e filhas- estas últimas, sempre no auge da juventude. Alguns se demoravam por ali, apenas por uns dias; outros, por semanas.
A situação era a seguinte: seja em dias de sol ou em dias de chuva, os viajantes costumavam parar no castelo ou para pedir abrigo ou para pedir um pouco de água. É claro que a curiosidade em entrar naquele lugar também os excitava. Nikolas Rodiv, que normalmente se encontrava em seu ateliê, na torre esquerda mais alta, apenas observava de longe quem por ali se aventurasse a procurá-lo. Mas apenas dava abrigo àqueles que realmente lhe despertasse algum tipo de curiosidade ou interesse.
Jovens moças com grande beleza era o que fazia Nikolas Rodiv a receber em seu castelo os viajantes. Os olhos cinza-esverdeados de Nikolas Rodiv, juntamente com o seu cabelo branco e ralo, davam-lhe um aspecto de inocência em seu rosto de bochechas avermelhadas. As famílias que por ali passavam costumavam lamentar o fato de um senhor de tão grande bondade, simpatia e refinamento, ter que viver seus últimos anos à mercê de um castelo abandonado. Mas Nikolas Rodiv apenas se ria disto e oferecia aos seus convidados o seu vinho e a sua comida. Mostrava-lhes os quadros de paisagens e vilas, ouvia com entusiasmo as suas músicas e por fim, mostrava-lhes o aposento de dormir.
O que os hóspedes não sabiam, é que grande parte da sonolência que sentiam era devido a um sonífero que Nikolas Rodiv havia colocado, ora em seus vinhos, ora em suas comidas. A noite já ia alta quando o dono do castelo destrancava a porta do quarto onde repousava a família e ali entrava a passos lentos. Nas mãos, apenas uma vela e uma pequena faca. Olhava rosto por rosto, aparência por aparência e quando seus ouvidos já tivessem acostumados com o ressonar das respirações, Nikolas Rodiv arrastava seu magro corpo idoso até a bela jovem que repousava tranquilamente.
Por poucos minutos, Nikolas Rodiv primeiro apenas a observava. Punha seus olhos sobre os longos cabelos, que já tinham variado de loiros, castanhos, negros ou ruivos. E os tocava, como se toca um tecido de seda... Seus olhos e mãos também passavam por sobre o rosto, os braços e as mãos, até chegarem aos seios. De súbito, Nikolas Rodiv soltava os cordões do espartilho e então, seu olhar e sua mão tinham apenas um único interesse: o seio esquerdo! Devia haver ali, entre todos aqueles seios esquerdos que ele já havia visto, uma marca de nascença. Uma marca que imitasse uma meia-lua. Como não havia ainda encontrado, Nikolas Rodiv, com a pequena faca nas mãos, deixava ali a sua marca. Não suportava a ideia de nada ter encontrado e em um acesso de fúria e de vingança, fazia ele próprio a meia-lua em todos aqueles seios esquerdos. A lâmina da faca corria rápida, fria e cruel. O sangue jorrava rápido e quente e então, Nikolas Rodiv o continha entre seus dedos e pintava os lábios daquelas jovens com seus próprios sangues. A porta rangeria atrás de si em seguida, e no dia seguinte, o amável senhor do castelo esperaria seus hóspedes com um café bem quente.
Mas uma noite, apenas em meados de 1899, Nikolas Rodiv pode finalmente encontrar a tão esperada meia-lua. A jovem, Mia Ostrivtchi, sonhava seus sonhos em estado de profunda serenidade. Seu corpo estava levemente inclinado para a esquerda, o que fazia seus seios estufarem por sobre o espartilho; a mão direita a encostar a face e seus cabelos castanho-avermelhados a embaraçarem-se no travesseiro de penas de pato. Desta vez, Nikolas Rodiv apenas observou seus traços e formas por um tempo superior em relação às outras vezes e fugindo ao costume, pegou Mia no colo e a levou para a última torre do castelo.
Como ainda não passavam das onze e meia, Nikolas Rodiv, que havia posto o corpo da jovem em um confortável sofá vermelho repleto de almofadas, preparou tintas e tela e então, começou a esboçar Mia Ostrivtchi. “Minha querida, minha querida”, ele pensava enquanto dava cores e formas ao desenho na tela. E em sua mente, aparecia a imagem de sua jovem esposa e daquela meia-lua em seu seio esquerdo que tanto o cativava. Lembrou-se daqueles dois anos em que ela esteve ao seu lado, e como ela posava para ele em suas pinturas. Nunca se esquecia de pôr à mostra aquela pequena e delicada marca: a sua marca; a marca de todas as mulheres de sua família. E Nikolas Rodiv a pintava, e caprichava no vermelho de sua boca, tão forte quanto sangue... Mas ela o deixou. E ele nunca a esqueceu. E ali, naquele momento, na mesma torre onde os dois jovens recém-casados praticavam escondidos suas orgias, Nikolas Rodiv tinha a sua frente, Mia Ostrivtchi. Nada menos do que a neta de sua amada.
Não precisava conferir a tão conhecida marca para ter a certeza que ele tinha. Como não ser a neta de Isabelle Panchov Rodiv? Ele reconheceria de longe aqueles olhos, nariz e lábios. Como não ser?
Os traços principais de Mia Ostrivtchi ficaram prontos em uma hora e meia. Nikolas Rodiv deslizava o pincel propositadamente bem devagar. Estava eufórico e em breve, seu plano seria concluído. Tudo no castelo já estava preparado há anos. Ansiava-se muito por aquele momento! E então, eis que o suficiente já havia sido feito. Nikolas Rodiv deu mais uma olhadela para a tela em construção e não precisando mais corrigir nenhum detalhe, partiu para o principal. Caminhou até a jovem e lentamente seus dedos contornaram os delicados lábios de Mia. Repetiu o gesto em todo o seu rosto e cabelo, exaustivamente, até que a moça desse sinais de estar voltando a si. Mia Ostrivtchi começou a agitar-se e suas pálpebras de um rosa delicado começaram a tremer. Ela acordaria em poucos segundos.
O momento havia chegado! Nikolas Rodiv partiu para os cordões no espartilho, desatando-os um por um. Mia Ostrivtchi usava um vestido azul-celeste, que havia sido pintado por Nikolas na exata tonalidade. E por debaixo de todo aquele azul, estava a pequena meia-lua. Tão pequena que poderia passar despercebida, não fosse sua cor creme naquela carne branca. A faca começou a riscar com perfeição aquela marca, quando Mia Ostrivtchi acordou. Seus olhos castanho-claros arregalaram-se antes que sua voz pudesse emitir qualquer grito e com isto, Nikolas Rodiv teve tempo para abafar-lhe eventuais pedidos de socorro. A mão que lhe tapa a boca era a mão que estava manchada com o sangue que ainda escorria por entre os seios da moça. “Minha querida, minha querida”, ele apenas dizia, quando subitamente a faca rompeu toda a carne daquele ventre. Os olhos de Mia Ostrivtchi foram fechados pelo senhor do castelo. Agora, ela voltou a repousar naquele sofá com suas fofas almofadas. Sua boca ainda mais vermelha devido ao sangue, competia com a cor do sofá. Mas era indiscutivelmente mais viva.
Nikolas Rodiv, com apenas um puxão em uma corda, fez lançar todas as latas de querosene que estavam escondidas em seu ateliê e que rolaram castelo abaixo. Bastou apenas a queda de uma vela, para que o castelo ardesse em chamas. E na torre mais alta, Nikolas Rodiv contornava com sangue os lábios de sua pintura e fazia a meia-lua no seio-esquerdo. As muitas labaredas que o rodeavam davam destaque à marca nos seios de Mia Ostrivtchi no sofá e na tela.







martedì 1 dicembre 2009

O mundo dos bolhas


Imagine se eu vivesse em uma bolha, como seria o mundo para mim? Provavelmente ali seria o meu mundo e nada mais. Ali eu cresceria e amadureceria. Ali dentro eu faria minhas escolhas e descobertas, tomaria decisões, venceria obstáculos e oponentes. Faria também, minhas refeições e acordaria e dormiria e sonharia... Ah... Os sonhos... Se eu vivesse em uma bolha, talvez eu teria mais tempo para sonhar. E imaginar. E inventar. E tudo isto me bastaria.
Se eu vivesse em uma bolha, eu ia querer descobrir o mundo lá fora. A Terra seria outro planeta e nada mais. Dentro da minha bolha eu passaria horas e horas criando expectativas e situações existentes além do meu pequeno espaço. Como seria sentir fora da bolha? Como eu me sentiria? E a mesma pergunta hoje feita pelos terráqueos também seria feita por mim: haverá vida fora da bolha?
Se eu vivesse em uma bolha, provavelmente eu poderia voar livremente por aí. Enquanto uma sôfrega brisa me soprasse suavemente, minha bolha e eu deslizaríamos pelo espaço, a voar, a voar, sem nunca realmente sabermos para onde estaríamos indo. Assim, passaríamos por florestas e oceanos; por bosques e rios; por jardins e lagos. Minha bolha é o meu planeta e ali, não há nada disto.
Mas, se eu vivesse em uma bolha, como seria viver sozinha? Haveria ali lugar para mais alguém? Se houvesse, seria divertido dividir algo tão simplório e especial com esta pessoa. Dividiríamos nossos anseios e planos. Porém, se algo nos desagradasse, como sobreviver a uma discussão? Onde eu poderia me esconder e refletir por uns instantes?
Talvez, por este lado, se eu morasse em uma bolha, o ideal seria que todas as pessoas também morassem em uma. Daí, sim, com certeza, teríamos o mundo ‘dos bolhas’. Ou seriam ‘os bolhas’ do mundo? Porque se cada um tivesse a sua própria bolha para morar e respirar, cada um teria o seu próprio mundo. E o criaria. E o reconstruiria. E o viveria da maneira como bem entendesse.
Se cada um tivesse a sua própria bolha, seriam milhões de bolhas a serem sopradas por aí - e por que não, cada uma com sua própria brisa? Seriam milhões de bolhas a voarem livremente pelo espaço, cruzando lugares fantásticos e também medonhos. Seriam milhões de bolhas a toparem-se por aí. Porventura, bolhas com brisas parecidas poderiam juntar-se para seguirem em frente juntas até formarem um imenso grupo de bolhas.
Porém, com isto, eu estaria voltando ao mundo em que vivo agora. Um planeta formado por grupos soprados pela mesma brisa. Um lugar habitado por inúmeras ‘pessoas-bolhas’, a viverem seus mundinhos e nada mais.

sabato 14 novembre 2009

From... To...

Tudo começou há algum tempo, uns meses, talvez. De um lado, fazia uma tarde quente e ensolarada, pouco típica para aquele meio de outono, de outro, não tão tarde assim, o dia estava ameno para uma primavera. E lá estavam os dois, perdidos em um gigantesco alfabeto de A à Z, uma louca mistura de nomes, uma imensa confusão de intenções e significados. Poucas letras separavam a “JGirl” do “Power” e após uns poucos minutos da entrada da garota no bate-papo virtual, surge um “hi” dele. Como a grande maioria das pessoas na Terra, eles também não pararam para pensar que grandes acontecimentos, pessoas e momentos podem começar com um simples “oi”, independente do idioma em que é dito. Continuaram a conversar, palavra atrás de palavra, frase seguida de frase, expressões que originavam outras, sentimentos que brotavam sem um porquê.
Uma ação tão comum para dois filhos deste início de século XXI - afinal, há alguns anos trocar mensagens instantâneas com pessoas dos mais diversos lugares e nacionalidades tornou-se algo tão tipicamente comum, que quase ninguém mais se surpreende em “teclar” com um macedônio, vietnamita, chileno ou britânico. Tamanha é a força da Internet no cotidiano das pessoas, que até se pode falar em uma imitação da vida real pela virtual. Nesta última, encontros e desencontros também se repetem; a linguagem escrita é bombardeada constantemente em uma tentativa de se dar um tom falado à conversa - e aí entram os “Us” nos lugares de “Os”, símbolos que imitam expressões faciais de alegria ou tristeza e assim por diante; há trocas de sensações, de informações, de conhecimentos...E tudo isto, de uma vez só!
E no meio de tanta tecnologia, entretenimento e inúmeras possibilidades, a moça brasileira e o rapaz americano começam a se conhecer. Obviamente, que ambos dividem, ao mesmo tempo, a atenção com outros seres tão diversamente estrangeiros quanto eles, mas isto não é nada importante perto do que eles ainda tinham para se dizer, pois algo estava ali a brotar. Primeiro timidamente, com suas pequenas raízes a encostarem à pequena casca de sua barreira, até fazer a pressão necessária para rompê-la. Em seguida, com a fixação das raízes, o crescimento daquilo que se pode chamar de amizade foi rápido e saudável. E pensar, que tudo assim, tão de repente...
Desde então, semanas se arrastam sucessivamente até alcançarem um mês. Por sua vez, os meses também seguem a sua lógica de encaminhamento no tempo e, sem nem se darem conta disto por muitas vezes, lá estão “JGirl” e “Power” envolvidos na escrita de suas palavras. São comentários, desabafos, perguntas, respostas, risos e lembranças. Conversas que só interessam a eles, em suas buscas de se apresentarem, de se conhecerem e de se depararem um perante o outro diante de tantas condutas em comum. Um espelho de palavras criou-se entre eles, fazendo com que sorriam um ao outro quando se estão “frente a frente”. Um jogo de sinônimos e antônimos em seus anseios; uma mistura de vocabulários conturbados por vezes; regras que sempre são quebradas.
No meio desta história ainda em construção por seus autores, as entrelinhas nunca são por eles esquecidas. Estão sempre lá, com um detalhe a mais de seus próprios eus; uma maneira de se mostrar que reside justamente na ação de se esconder. Uma forma petulantemente esquisita de falar sem nada falar. Por ora, os dois não acham isto. Por uma série de estranhos motivos - e aí entram os sentimentos - preferem agir assim em certos momentos. A confusão de expectativas, de pensamentos e de sentimentos assola o corpo e a alma destas criaturas. “Strange feelings”, escreve o americano à brasileira. Ele só se esquece de lembrar, que em um mundo onde as proximidades tornaram-se tão redundantemente próximas, “what’s the matter?”.

sabato 7 novembre 2009

Meu céu, meu poder, seus sentidos


Certa vez estava me perguntando se seria possível, um dia, alcançar o céu. Mas não estava me referindo a uma viagem de avião, helicóptero, balão ou foguete; o que eu queria mesmo era erguer meu corpo, até ficar na ponta dos pés e assim, pegá-lo, da mesma forma como sempre peguei qualquer coisa que estivesse acima da minha cabeça.
Quem sabe, o céu seja como um livro no alto de uma prateleira, em que, com apenas um pequeno esforço, eu possa tomá-lo para mim e apalpá-lo, senti-lo em toda a sua aspereza ou maciez até meus dedos se cansarem e eu finalmente poder abri-lo para poder descobrir seus mistérios...
Quem sabe, o céu seja como um belo porta-retrato no alto de uma estante, em que, com apenas um pequeno esforço, eu possa tomá-lo para mim e admirá-lo bem de perto, assim como eu faço com qualquer coisa bela que me atraia. Olhar suas cores, sua tonalidade, sua intensidade e sua vida até fotografar sua imagem com a minha memória...
Quem sabe, o céu seja como um vidro de perfume no alto de uma penteadeira, em que, com apenas um pequeno esforço, eu possa tomá-lo para mim e sentir seu aroma em toda a sua profundidade e embriaguez...
Quem sabe, o céu seja como um disco de música no alto de uma coleção de algum colecionador, em que, com apenas um pequeno esforço, eu possa tomá-lo para mim e com alguma expectativa crescente, pôr a executar toda a sua sonoridade... Um som de paz em um céu azul; um som vibrante em um céu agitado de nuvens cinzentas; um som inspirador em um céu róseo-avermelhado...
Nada é difícil de se alcançar quando se pode erguer-se na ponta dos pés e esticar os braços. Nada é difícil de se alcançar quando se podem imaginar suas sensações. Nem mesmo o céu. Afinal, o horizonte é logo ali.

giovedì 10 settembre 2009

Chapeuzinho Vermelho, dona de seu nariz



Era uma vez, uma moça chamada Chapeuzinho Vermelho. Obviamente este não era o seu nome verdadeiro, já que é um tanto quanto estranho (e ridículo) alguém ter nome de “Chapéu”, seja ele de qual cor for. Mas este era o modo como a garota, de mais de 18 anos, era conhecida na região onde morava, porque desde a infância ela insistia em usar uma capa com um gorro vermelho na cabeça. Certa tarde, sua mãe pediu-lhe para que fosse à casa de sua avó entregar uns doces de que a velhinha tanto gostava. Chapeuzinho hesitou um pouco em ir, pois estava muito atarefada com seus trabalhos universitários, mas acabou concordando. E como as mães sempre costumam fazer, não importando se a idade do filho seja 7, 20 ou 50 anos, a mãe de Chapeuzinho Vermelho deu alguns alertas a sua filha antes dela partir:
-Não converse com estranhos, não pare no caminho por pouca coisa e vá pela estrada do rio. Ouvi dizer que há um lobo devorando as pessoas na floresta, por isto, é sempre bom tomar cuidado.
E lá foi a garota com a sua capa vermelha a caminhar pelo bosque. O gorro vermelho a encobrir-lhe quase que totalmente o rosto, apenas realçando seus traços mais marcantes nos olhos, nariz e boca. Uma longa mecha de cabelo caía-lhe pelo ombro direito. Menos de dois minutos depois de ter saído, e Chapeuzinho já nem se lembrava mais das advertências da mãe. Afinal, há tempos que ela deixara de ser aquela menininha que temia os animais da floresta (com exceção de barata, claro! Mesmo não sendo algo exclusivo de grandes matas, este bicho, causa sim, um pânico imenso! - em muitas mulheres, diga-se de passagem). Agora, ela vivia perdida em seus pensamentos, a preocupar-se com a faculdade, com certos amores, com seu futuro. E sem perceber, afastou-se do caminho que sua mãe a aconselhara seguir.
De súbito, surgiu alguém em seu caminho.
-Olá, moça bonita! Para onde vai, assim, tão distraída?
Apesar de ele não ser bonito aos olhos da moça, tinha um porte físico um tanto quanto marcante, além de olhos escuros e ágeis, o que de certa forma, chamara a atenção de Chapeuzinho. Ela não pensou duas vezes em responder:
-Vou à casa de minha avó, entregar uns doces. Ela está doente. Mas quem é você?
Mesmo estando frente a frente com o lobo citado por sua mãe, Chapeuzinho Vermelho não o reconheceu. Ao passo que o lobo responde:
-Sou um anjo da floresta e estou aqui para proteger mocinhas frágeis e indefesas como você. “Definitivamente, já ouvi cantadas melhores”, pensa a moça e apenas sorri. O lobo, muito interessado em continuar a conversa, continua:
-A sua avó mora longe daqui?
-Não, muito. Ela mora na primeira casa depois da curva do rio.
-Certamente é perto - ele responde. Sabia que é sempre bom encontrar pessoas por esses caminhos que não se importam em conversar? Muitas pessoas acham que não é legal conversar com estranhos...
-Ah! Mas este conselho é mais voltado para as crianças, não é mesmo? Elas sim, são completamente inocentes para saberem distinguir uma boa pessoa de uma má. Os adultos, em sua maioria, conseguem perceber rapidamente as segundas, terceiras e até, quartas intenções dos outros...- comenta Chapeuzinho.
-Uau! Vejo que realmente as coisas estão mudadas hoje em dia. Foi-se o tempo em que lobos maus enganavam menininhas... – e com isto, o lobo soltou sua risadinha aguda e seca. Chapeuzinho aparentava já impaciência. Era impressionante como certos “engraçadinhos” insistiam em cruzar seu caminho. O lobo, já percebendo a ansiedade da moça por ir-se embora, resolveu ele próprio, seguir em frente. Despediu-se dela e por um atalho, chegou à casa da avó da garota primeiro que ela.
Minutos depois, Chapeuzinho Vermelho estava a bater na porta da casa de sua avó. Apenas uma voz muito estranha, veio lá de dentro.
-Pode entrar, minha netinha. Apenas puxe o trinco.
A partir daquele momento, a moça começou a preocupar-se realmente com a saúde de sua avó. Só estando muito doente para não conseguir sequer, abrir a porta. Deixou os doces em cima da mesa e foi-se para o quarto da senhora. Tudo estava do mesmo jeito de antes. Os mesmos objetos nos mesmos lugares, o mesmo cheiro de limpeza, o mesmo som da televisão ligada em volume mínimo. A avó estava em sua cama, com uma touca na cabeça e com a coberta puxada até a altura dos ombros. Chapeuzinho notou algo de muito estranho na aparência da velhinha. Seu rosto estava muito mudado e até mesmo, peludo. “Será que a vovó deixou de usar os cremes anti-rugas que lhe dei”, pensou a moça. E comentou:
-Vovó, mas que olhos tão grandes!!!
-São para te olhar melhor, minha netinha.
-E que nariz grande, vovó!
-São para te cheirar melhor, minha netinha.
-E que orelhas tão grandes!
-São para te ouvir melhor, minha netinha.
Por mais que sua avó realmente estivesse precisando enxergar e ouvir melhor, Chapeuzinho Vermelho estava estranhando cada vez mais aquela situação. Cheirar melhor? Que história é esta? E resolveu arriscar mais uma vez:
-Vovó, mas por que esta boca tão grande?
Cansado já daquela situação, o lobo, vestido de avó da Chapeuzinho, gritou a plenos pulmões:
-São para te comer melhor!!!!!!!!!
E avançou por sobre a garota. Como toda mulher que pensa estar sendo atacada por um maníaco sexual, Chapeuzinho Vermelho berrou:
-Socorro!!!! Um tarado!!!!
Instantaneamente, ela começou a espernear, esmurrar e tentar atingir as partes baixas daquele sem vergonha a todo custo. Quando de repente, os guardas da floresta, ao passarem próximo ao local, ouviram os gritos de ajuda da moça e correram para a casa de sua avó.
O lobo foi morto com um tiro e Chapeuzinho Vermelho estava tomada de pavor, achando que a sua avó tinha sido morta por um doente mental. Só que os guardas explicaram a ela que aquele era um tipo de lobo mau, que atacava pessoas inocentes em seu caminho. Sua avó tinha sido devorada por ele, no sentido literal da palavra e era isto o que ele também, pretendia fazer com ela, se eles não tivessem chegado a tempo. Porém, como ele engolia as pessoas por inteiro, sem mastigar, bastava abrir sua barriga e retirar a vovozinha.
Minutos depois, neta e avó estavam abraçadas e choravam muito. Chapeuzinho Vermelho não conseguia entender como a palavra “inocência” podia se dar de formas tão diferentes para adultos e crianças.

venerdì 21 agosto 2009

Diálogos de uma mente em transe



Papel e caneta na mão e alguma ideia na cabeça, se possível. Lá está a caneta a rabiscar o papel, deixando nele sua tinta em formato de palavras. Mas o que são as palavras, a não ser um monte de letras, porventura tortas, que ora sobem, ora descem e que muitas vezes são incompreendidas?
Os pensamentos fluem constantemente e por inúmeras vezes aquele famoso símbolo de uma lâmpada acesa bem acima da cabeça de seu pensador, aparece. Às vezes, a ‘lampadazinha’ permanece acesa por um período de tempo maior, o que dá a entender, que desta vez a caneta que desliza sobre o papel não terá suas palavras arremessadas para dentro da lixeira. Mas que nada! Lá vai mais uma bolinha branca com riscos azuis a misturar-se com as demais.
A lixeira ao lado da escrivaninha está transbordando de ideias mal estruturadas. São bolos e bolos de uma papelada que invade até mesmo o chão. Já não há mais limite para manter as pequenas frases ali escritas. É como se houvesse um grande vulcão, a vomitar com fúria sua lava de papel-palavras. Ainda que deformadas pelo amassamento do papel, tais frases insistem em se mostrar. É possível ver construções quase inteiras, pensamentos quase completos jogados ali. Anotações de uma mente em transe.Quem foi que disse que escrever é fácil?
-Você poderia ter a delicadeza de não me descartar com tanta frequência?- surge uma voz de repente.
-Quem está aí?-pergunta a pessoa que escreve, a caneta a ergue-se na mão.
-Ora, esta! Quem sou eu? Quem mais poderia ser? Sou o seu lado mais criativo e inovador, aquele que te garante prêmios, satisfações e elogios, às vezes, até mesmo uma promoção no emprego também. Não percebe quem sou eu?­
- Não!- responde a pessoa enquanto passa a mão pelos cabelos.
-Veja, sem você eu não poderia existir, assim como, sem mim, você não poderia ter feito muitas coisas. Sou a Ideia!
-Muito prazer, dona Ideia. Mas me diga, por que este tom de repreensão?
- Porque você simplesmente não está me dando o devido valor. Olhe para aquela lixeira, sim, esta mesma! O que você vê?
-Vários papéis amassados dentro e fora dela. Ou seja, nada mais do que lixo.
-Lixo???- responde a Ideia com grande indignação. Você está me chamando de lixo?
-Não a senhora, mas os papéis.
- E o que são os papéis a não ser uma prova documental da minha existência? Eles são a forma que você achou para me materializar. Palavras escritas, pensamentos concretos, isto nada te diz?
Dona Ideia estava realmente brava, ao passo que a pessoa responde:
-Eu não queria ofender a senhora, aliás, nem sabia que fosse possível nos encontrarmos aqui. Eu apenas descartei folhas de um caderno onde cri não ter achado a melhor maneira de começar o meu texto.
-Pois saiba, que ideia alguma deve ser descartada! Todas são válidas como forma de experiências, de melhorar a criatividade e de, portanto, originar novas outras ideias. Se para o momento alguma não foi útil, no futuro bem poderá ser utilizada.
Um silêncio toma conta do lugar. A pessoa que escreve está a pensar. Olha para o papel e para a caneta, que também lhe lançam olhares.
- E então, o que me diz?- fala a Ideia.
A pessoa que escreve está com um ar confuso. Apenas responde:
-Você me disse quem você é, mas não o quê você é...
-Pelo visto, muito preciso explicar a você... Eu sou o que você quer que eu seja. Digamos que sou como o vento a bater nas rochas: através de pequenas inserções, ações e insistências, vou modelando a “rocha”. Depois de um período bem prolongado, ela se torna diferente e única. Entende?
-Acho que sim.
-Mas se você me repreende, me atira e me minimiza, como posso me chamar Ideia?
A pessoa que escreve apenas assente com a cabeça. No final de tudo, o vulcão de papel-palavras parou de ebulir e a lâmpada na cabeça de seu pensador não parou mais de brilhar. Estava a iluminar seus pensamentos e dar cada vez mais luz às suas ideias. Assim, Pessoa e Ideia continuaram a dialogar. Falaram tanto, que inúmeras outras Ideias se juntaram à prosa. Conversaram até extinguirem todas as palavras que pudessem ser ditas.