Cos'è?



martedì 5 ottobre 2010

Auto-Retrato


Olho o meu retrato. Como pode uma máquina me retratar assim? Não são meus estes cabelos brancos e finos; não são minhas estas rugas que sugam a minha juventude. Também não possuo estes olhos sem brilho e nem esta boca murcha.
Olho o meu retrato. Quem me deu este ar de doente e acabada? Quem fez com que minhas mãos se tornassem frias e sem vida? O xale que me envolve cobre a nudez acabada de meu colo. Como que esta pode ser eu?
Olho o meu retrato mais uma vez. Um choro silencioso lava o meu ser. Quem sabe lavando-me e mandando para bem distante esses detalhes que me cobrem, eu torne a me reconhecer?
Onde ficou a minha juventude? Onde está o brilho que iluminava a minha pele e os meus olhos? Onde está a maciez de minhas mãos e a frescura do meu corpo? Onde está?
Reviro outros álbuns fotográficos e neles encontro o que queria. Esta sim, sou eu, linda e jovem. Perfeitamente perfeita.
Olho o meu retrato uma, duas, três vezes e me reconheço. Como pode uma máquina me retratar assim?

venerdì 1 ottobre 2010

Tremo e T'Amo


O sopro cruel do destino levou para longe cada um daqueles dois corações. Era uma noite escura e fria e sem estrelas, que dava espaço apenas para as nuvens no céu. Nuvens carregadas de tempestade. Ele, ainda com o chapéu em uma das mãos, saiu sem nada dizer e nem mesmo olhou para trás. Ela, com grossas lágrimas no olhar, sufocava-se em soluços. Não quis observá-lo partir pela última vez.

Foi em uma tarde quente de fevereiro que aquela carta chegou. Escrita com letras grandes e trêmulas e lida com olhos arregalados e hipnóticos, ficou manchada com a tinta borradeira da caneta e com o choro que caia no papel. Quem a escreveu, lembrou-se somente da amada no momento do fuzilamento. Quem a leu, morreu de desgosto oito meses depois.

As horas insistiam em passar e ela não chegava. Seu companheiro, um rapaz de 22 anos, chacoalhava a perna direita de ansiedade, sentado em uma cadeira na confeitaria. Namoravam há quase dois anos e fazia dez dias que não a via, devido a uma curta viagem que ela fazia. Ela é linda, inteligente e sexy, dizia ele ao amigo mais chegado. Ele tem bom papo, um bom carro e será engenheiro em breve, contava ela às amigas. Naquele dia ela não apareceu. E nem no outro. O rapaz nunca mais a viu. Soube, anos mais tarde, que ela casara-se com um outro rapaz que conheceu durante aquela viagem.

O casamento durou exatamente 48 anos, 7 meses, 3 semanas e 4 dias. Foram muitas as horas felizes, foram muitos os segundos de satisfação. Mas agora, como em um passe de mágica, tudo acabara. Ele jazia em seu caixão preto e florido, as mãos cruzadas, a pele pálida e serena. Ela o contemplava como quem contempla uma flor: os olhos parados, meigos e transbordantes. Como seria acordar sem tê-lo ao lado? Como seria respirar sem a sua companhia? Como seria caminhar na praia sozinha? E à noite, quando as estrelas saíssem, como seria olhar para aquele céu sem que ele dissesse que ela era a estrela mais brilhante? Como seria?

A garota de vestido vermelho observava assustadamente o garoto de camisa verde beijar a garota de saia amarela. Pareciam estar felizes e aquele parecia ser o mais doce dos beijos. O sangue fluía quente dentro da garota de vestido vermelho, que tornava-se cada vez mais branca. “Ele não tinha este direito”, seu coração gritava! Chorou em seu quarto por longas semanas, até que um dia, acordou animada e decidiu passear.

Palavras eram digitadas diariamente. Palavras que não tinham fim. Sentimentos que se acoplavam a elas, formando uma delicada corrente de paixão. O computador era o lugar de encontro deles e seu teclado e câmera o meio de expressão. Nunca tinham se visto antes, a não ser por ali. Mares e montanhas separavam seus corpos. Mares e montanhas não impediam aquele amor. Até quando o destino prolongaria aquela esperança de um possível encontro real?

O sangue manchava a neve. O sangue tirava-lhe a vida. Não havia quem pudesse ajudá-lo ali, naquele lugar. Só havia ele, a neve e agora, a escuridão. O inimigo o atingira e vencera. A medida que o sangue ia esvaindo-se, perdia também tudo o que conquistara até aquele momento: sua saúde, sua família e amigos, seus troféus na natação, suas risadas, seus sonhos, seu grande amor. Muitos quilômetros além de onde ele jazia, ela pensava nele. Olhava pela janela a paisagem lá fora com suas pessoas e movimentos, na esperança de que ele pudesse surgir no meio delas.


Tremo e T’Amo(T. Ferro/G. Servillo)

T’amo e tremo
Disse la donna
Al suo soldato
Che non tornava
La sua voce
Nel vento correva
Sopra la neve
Dove lui combatteva

Tremo e t’amo
Disse e piangeva
Nel buio della sala
Qualcuno rideva
Per far torto alla paura
A questo amore che già finiva

Il ricordo tradisce la mente
Il soldato non sente più niente

D’improvviso
Fu preso alle spalle
Dal suo nemico
Che strano parlava
Delle rose, del vino e di cose
Che un’altra vita gli prometteva
Ma quante spose
La guerra taglieva
Dalle braccia della prima sera

Tremo e ho freddo
Disse il soldato
Al suo nemico che lo guardava
La sua voce nel vento restava
Sulla platea che muta ascoltava.

A Transição da Loucura


Estepe, como bem explicam os geógrafos, é um tipo de vegetação rasteira, com uma coloração entre o verde-claro e o amarelo, onde não se encontram árvores e cujo clima é frio e seco. Assim como em todos os outros lugares da Terra, este tipo de paisagem também tem animais e homens entre os seus habitantes, como os “homens-homens”, os “lobos-animais”, os “homens-animais” e os “homens-lobos”. Uma gama de espécies, variações de estilos, limitações de apenas existir; um espaço de transição entre a savana e o deserto.
É comum observar que o ‘interespaço’ de lugares e de situações normalmente são deixados de lado em muitas análises. Tende-se sempre a realçar o fato de forma geral, o que pode dar a ele uma caracterização por vezes enfadonha; as citações e enumerações de seus elementos também são maneiras clássicas de abordagem do objeto. Com tais atitudes, encerra-se uma respeitosa pesquisa de algo, em que apenas mencionam-se o passado, o presente e o futuro. Já as entrelinhas, como de costume, são deixadas de lado, mais uma vez.
Mas com toda a certeza, esta não é a opinião do escritor alemão Hermann Hesse (1877-1962) e do seu clássico e mais consagrado livro “O Lobo da Estepe*”, escrito em 1927. É na transição de um clima- que aí, não se refere apenas ao geográfico, mas também às situações, principalmente às de humor- que o autor desenha seu personagem. Harry Haller é o nome dele, um alemão em torno dos 50 anos, com boa aparência, boa cultura e o que mais se pode chamar de “bom” perante à pequena e grande burguesias, mas de hábitos internos condenáveis. Um ser que desdenha muitas coisas (a começar pela própria burguesia), um total anti-social, um aquariano não lunático, um rebelde em opiniões, um agressor de simpatias. Afinal, o que mais esperar de alguém que abriga um dos lobos da estepe em seu próprio interior? Corpo de homem, alma de lobo, melhor dizendo.
O livro possui duas partes bem curiosas: o prefácio e o posfácio. O primeiro não foi escrito por algum tradutor que leu Hesse, mas sim, pelo próprio. Ou melhor, por um personagem. É uma visão de alguém que conviveu de perto com o Lobo da Estepe, conhecedor de muitos de seus hábitos (reservados, diga-se de passagem), de sua personalidade introvertida. O sobrinho da dona da pensão onde Haller mora tece comentários pertinentes sobre ele: indaga seu comportamento por vezes arredio, aponta detalhes de sua aparência, e por fim, mostra-se simpático por este ex-inquilino da pensão.
Já no posfácio, o próprio Hesse ele mesmo é quem aborda, de fato, o seu próprio livro. Há sinais de indignação em suas frases ali escritas. Não se trata, com toda a certeza, de uma indignação contra ele mesmo ou contra algum de seus personagens, mas sim, contra alguns que leram a obra. Nesta parte, ele tenta melhor explicar sua história, apontar interpretações. Tamanha é a paixão dos leitores pelo homem-lobo (há os que digam terem um lobo da estepe morando dentro de si também), que muitos se esquecem de outros temas abordados na obra, como a questão do contexto de um mundo pós-Primeira Guerra (1914-1918)- em que todos os alemães sentem-se frustrados por a terem perdido, com exceção de Harry Haller-, além dos hábitos da vida burguesa e dos medos e anseios que envolvem qualquer ser humano. Obviamente o autor não condena por todo o seu público, já que a interpretação é algo muito pessoal de cada um. Porém, esta sua pequena “queixa” faz repassar e reforçar pela mente muitas das situações vividas pelo personagem.
O Teatro Mágico: quem não gostaria de ir a um, onde portas são constantemente abertas e um profundo mundo de fantasias é colocado à disposição? Só que para frequentar este lugar é preciso antes de tudo, ser ‘raro’, ou melhor, ser ‘louco’. A inscrição no papel do homem que caminha por sobre as poças de água é clara: “Teatro Mágico- só para raros, só para loucos”. Um lugar perfeito para testar a “insanidade” do Lobo da Estepe. Seus amigos Hermínia, Paulo e Maria também se encontram por lá. A cada porta aberta, uma enorme surpresa paira em frente aos olhos do homem-lobo, do lobo-homem. Homem e seu lobo encontram-se livres, soltos a percorrem as mais estranhas experiências. São milhares de Harrys com seus lobos a correrem pelo lugar, são antigas paixões a serem vivenciadas novamente, são momentos de tensão e crueldade, onde apenas a sobrevivência importa. “Só para l-o-u-c-o-s”, de fato.
Hermínia, Paulo e Maria são fabulosos em suas personalidades, completamente opostas a do Lobo da Estepe. E é justamente quando Hesse confronta este modo de agir e de pensar de suas criaturas que o livro adquire a “hiper-interpretação” dos leitores por Harry Haller. É evidente o choque que este frente-a-frente de posturas crie uma atmosfera de cumplicidade pelo Lobo da Estepe. Talvez este seja o ponto crucial não notado pelo escritor em seu posfácio.
Um livro diferente em termos de enredo e cativante em termos literários, mas que não foi escrito para qualquer leitor. Tal como o Teatro Mágico, foi feito “só para raros, só para loucos.” Só sendo realmente “louco” para compreendê-lo em sua totalidade.

*Tradução de: Barroso, Ivo. Record. São Paulo. 2000.

giovedì 30 settembre 2010

Rabiscos


Estou perdidamente apaixonada. É uma emoção tão forte que invade meu peito, que domina minha mente e que me faz ficar em nostalgia por horas a fio. Oh, paixão, como te arrancar do meu peito?
O nome dele é Louis. Um belo rapaz com pouco mais de 200 anos de vida. Parece muito, não é? Pois saiba que o meu Louis é o tipo mais lindo da beleza masculina eternizada em um corpo de 24 anos. Pele branca como uma rosa incolor, olhos verdes de lago, sugador de sangue.
Ah, mas é claro que o vampiro de que vos falo não é o meu único amante platônico. Divido meus pensamentos também, com tantas outras formosuras literárias. São tantos heróis, vilões (sim!), aventureiros, personagens comuns. Todos se acoplam a minha pessoa e passam a me constituir. Eu sonho, recordo, viajo, brigo, perdoo, rio, choro, amo e odeio juntamente com eles por tantas vezes...
Ainda tenho esperanças de achar rastros de Maurício Babilônia por aí. E lembro-me muito bem de como fazer: basta seguir as borboletas! Tudo bem que ele é um rústico e como toda pessoa rude, não pensa, apenas faz! Pelo menos restam de suas ações as tão delicadas e coloridas borboletas...
Senti uma pontada no coração quando soube de Vanda, uma cadelinha vira-lata que teve em seu destino uma tão forte sensação. Vanda-Valentina, Valentina-Vanda. Animais tão humanamente vividos, tão marcantes e sensíveis em suas existências e que hoje deixam apenas saudades. Talvez, se eu tivesse um pouco de Ana, a grande matriarca da família Terra, a lacuna aqui dentro fosse um pouco menor.
Mas uma coisa tenho que confessar: eu também vi um chapéu! É tão triste saber que a infância ficou para trás e que aquela inocência já não existe mais. Bom, pelo menos eu me esforço para ver um elefante dentro de uma jibóia, mas não sei se “está valendo”... (está Pequeno Príncipe?)
Ah! E como adorei pegar carona com o hilário Sal Paradise e percorrer os Estados Unidos de leste a oeste e de norte a sul!!! É claro que também rodei meio mundo com o sr Fogg e Passepartout, além de ter embarcado também na companhia da “Menina Má”.
É, com toda certeza amar faz bem. Como adoro estes meus amantes e companheiros! É tão bom ir visitá-los...


Para quem quiser ir também ao encontro deles, basta abrir as páginas de:

-"Entrevista com o vampiro"/"O vampiro Lestat"/"A história do ladrão de corpos"/"O vampiro Armand"/"Merrick"- Anne Rice
Louis du Point du Lac

-"Cem anos de solidão"- Gabriel García Márquez
Maurício Babilônia

- "Tristano morre"- Antonio Tabucchi
Vanda

-" O tempo e o vento- 1° livro de "O Continente"/"Ana Terra"- Érico Veríssimo
Ana Terra

-"O pequeno príncipe"- Antoine de Saint-Exupéry
O Pequeno Príncipe

-"On the road"- Jack Kerouac
Sal Paradise

-"A volta ao mundo em oitenta dias"-Julio Verne
Mr.Fogg e Passepartout

-"Travessuras da menina má"- Mario Vargas Llosa
Menina Má

mercoledì 29 settembre 2010

As Fronteiras do Infinito (e a Internet no meio delas)


Grande parte da população vive atualmente em dois mundos: o real e o virtual. O primeiro refere-se aos lugares sociais por ela frequentados em pessoa física, como ambientes familiares, de trabalho, de estudos, de lazer entre outros. O segundo, deve-se a tudo isto e ao que mais proporcionar a internet, acoplados a uma presença não tão “presencial” assim. Isto quer dizer que qualquer pessoa pode estar na Rússia, na Indonésia ou na França ao mesmo tempo, mas sem nunca ter saído do Brasil. Eu mesma, que escrevo este artigo, em quantos lugares distantes estou neste momento? Onde estão vocês, meus leitores? Quem sabe nos Monte Urais, ou nas Ilhas Malvinas ou ainda no Sítio do Cabral? Eu estou em Pindamonhangaba e juro que não saí daqui em nenhum momento!
Os usuários de internet (que no Brasil chegaram a quase 38 milhões de pessoas em março) que navegam por lugares nunca antes navegados, possuem uma ampla variedade de ferramentas que possibilitam o acesso ilimitado, muitas vezes, à pessoas, lugares e fatos. Escrever uma carta, selá-la, colocá-la no correio e esperar o tempo em que será recebida e lida é algo raro praticado por aqueles que vivem na virtualidade: manda-se logo um e-mail, o chamado “correio eletrônico virtual”. É engraçado falar, mas na minha época (nem faz tanto tempo assim, só tenho 24 anos) os diários eram completamente confidenciais e ai daqueles que os lessem! Hoje, com a popularização da internet e com a criação de sites de cunho cada vez mais expositivos, como blogs e Twitter, a moda é justamente ser lido e expor-se! Contar como foi o seu dia, que você está agora almoçando, que o seu cachorro está doente e que logo mais você sairá com o seu novo namorado é algo cada vez mais comum nos sites sociais. Isto sem falar nos de relacionamento, como Orkut (febre no Brasil, com mais de 25 milhões de usuários no país), Facebook (líder nos Estados Unidos), Sonico, My Space entre tantos outros, com seus perfis que possibilitam colocar vários tipos de informações pessoais sobre o usuário, com seus espaços para fotos, suas páginas de recado simultânea, suas comunidades que agregam interesses e opiniões semelhantes. É uma nova forma de se mostrar, de dizer quem é e até onde vai.
E o que não falar dos chats, salas de bate-papo on-line, onde as pessoas encontram-se em uma tela de computador e ali conversam sobre o que bem entenderem (há os que afirmam que esta é a maneira mais fácil de se dizer “certas coisas”)? Muitos namoram por este meio e até se apaixonam, mas um casamento virtual, eu confesso que deve ser meio estranho: a noiva em um computador, o noivo em outro, cada convidado com o seu e então, faz-se do casório uma video-conferência? Há loucos para isto?
Se para unir os trapos, eu nunca vi algo de fato, no mundo virtual, uma coisa eu garanto: é possível trabalhar e estudar apenas com um computador conectado à rede. Esta é uma das mais recentes novidades do mundo moderno (real ou virtual?): assistir aulas universitárias (e formar-se em um curso desta maneira), dar aulas à milhares de alunos simultaneamente espalhados por todo o país, fazer reuniões de trabalho, trocar informações. Até mesmo viver uma vida que não é a sua é possível e não me refiro às mentirinhas que os internautas contam em seus perfis para amenizar alguma característica sua que não lhes agrada. Falo em relação aos mais diversos tipos de jogos, onde os usuários criam personagens, fazem seus comportamentos e decidem cada um de seus passos. Quem jogou (ou ainda joga) The Sims sabe do que estou falando. É realmente ser o que quiser.
No meio de toda esta gama de informações e pessoas que não param de chegar, eu até me confundo: onde estou agora, no mundo real, em que pessoas, sons e objetos me cercam, mas não conseguem prender por completo a minha atenção, ou estou no mundo virtual, onde estas palavras ficarão presas e um número incontável de seres com seus sons e objetos, irá apreendê-las para tentarem captar um pouco de mim? Existem fronteiras entre o real e o virtual?

martedì 14 settembre 2010

Metamorfose


Todos sabemos o que acontecerá com certas borboletas que se aventuram a voar por onde não devem. Se voam sobre algum rio, viram lambaris; se sobre o mar, tornam-se camarões.
Não é por acaso que quando encontramos alguém que costuma ser muito distraído e sonhador, e que sempre se arrisca em algo completamente sem fundamento, logo o chamamos de "cabeça de borboleta".
De fato, as borboletas possuem cabeças de borboleta já que saem a bater livremente suas asinhas coloridas por onde bem entenderem. E se infiltram por entre jardins, e fazem piruetas em vasos nas janelas,e rodopiam nas florestas e bosques...No meio de tudo isto, encontram o perigo de um predador, de um caçador ou de um feiticeiro.
Faz muitos anos, quando as borboletas eram apenas uma das muitas espécies de animais existentes no planeta, uma delas, de coloração preta e amarela, estava a voar próximo de um garotinho que brincava de contar formigas. Sabendo que era encantadora, começou a assanhar suas asas aveludadas ao redor da criança. Ao ver tanta beleza em um ser tão delicado, o pequeno menino decidiu abandonar as feias formigas e acompanhar a borboleta. Sem dúvida, aquele era o ser mais belo dentre toda a floresta e ele queria muito poder pegá-la e guardá-la consigo, para que um dia, quando fosse o maior feiticeiro do mundo, tal como o seu pai era naquele momento, poder transformá-la na mais bela princesa que os povos já viram.
Foi andando e andando, atravessando corredores e corredores de árvores, filas e filas de flores, deparando-se com diversos animais no caminho. Mas nada daquilo o garotinho via. Seus olhos estavam grudados na tonalidade negro-amarela da borboleta e em seus movimentos, que insistiam em voar para cada vez mais longe, até atingir o fim da mata e encontrar-se com o mar.
Sempre seguindo em frente, a linda borboleta sacudia, agora, suas asas acima das ondas. Estas iam e vinham e o menino, ainda a contemplar tamanha formosura, nem se deu conta de que adentrava o grande e misterioso mar. Foi caminhando cada vez mais fundo, os olhos fixos na borboleta lá em cima, olhos que se inundavam de uma água pesada e salgada. Quando o olhar da criança inundou-se por completo e ele não pode mais retornar, a enigmática borboleta preta e amarela mudou o bater de suas asas e resolveu modificar o seu percurso.
Mas o poderoso feiticeiro, pai do garotinho, que àquelas alturas já descobrira o paradeiro de seu filho desaparecido há horas, resolveu se vingar. Reuniu os maiores ingredientes que possuía e aliados à sua ira, repetiu 88 vezes: "Ó,forças da natureza tirem a malícia das borboletas! Forças da natureza,aprisionem as borboletas nas profundezas!".
A linda borboleta que ainda tentava se afastar das ondas do mar, subitamente foi perdendo forças e começou a cair. Atingiu as mesmas águas que agora cobriam o garotinho e com ele lá ficou. Mas perdeu também a sua beleza e no lugar de suas fascinantes asas cresceu uma grossa casca de aspecto repugnante. Suas belas antenas tornaram-se barbatanas e aquela que um dia foi uma borboleta, agora não passava de um desajeitado camarão.
Desde então, todas as borboletas que são atraídas pela força das águas e por elas se apaixonam, acabam tornando-se reféns de suas próprias ingenuidades.

sabato 11 settembre 2010

Os pássaros de Maciel



“Quem eu me vejo no espelho?”, pergunta uma voz saída das páginas de “Retornar Com Os Pássaros” (Ed. Leya, 72 páginas, 2010), novo romance de Pedro Maciel. “(...) Às vezes, penso que sou o máximo de mim quando sou você”, comenta a voz, para em seguida, indagar mais uma vez: “Você me entende?”.
Para compreender esta obra é necessário que o leitor venha munido basicamente de duas coisas: um baú e um espelho. O primeiro, para retirar lembranças, livros, anotações, fotografias e sensações dadas por perdidas e colocá-las todas em cima da cama, fazendo com que revivam por alguns segundos, para depois substituí-las no baú por objetos e momentos presentes. O segundo, para contemplar-se com o narrador. Juntos, suas imagens refletem detalhes, imperfeições e um “eu” que não necessariamente corresponde a eles próprios: “Quem eu me olho no espelho?” é o questionamento feito o tempo todo e de todas as formas.
Aliás, a palavra ‘tempo’ é uma das mais frisadas pelo autor. Em “Como Deixei de Ser Deus” (Topbooks, 2009), o narrador situa-se em um tempo de todos os tempos, em que os anos são relativos e as datas sem cronologia. Na obra atual, o contexto segue novamente a linha de uma universalidade atemporal, porém mais situacional, porque Maciel relembra à personagem do início da formação do Universo, da Terra, do Sol e das estrelas, abordando conceitos de áreas como Física, Religião e Biologia, sem se esquecer da própria História e Filosofia. Isto cria uma atmosfera de climas diversos, em que o leitor, ao divagar por cada uma delas, depara-se com a base de um conhecimento em eterna construção.
O narrador é somente um elemento entre todos os habitantes do planeta. Sua singularidade não permite com que seja o representante ideal da espécie humana (haverá um representante ideal?), mas sua pluralidade de “eus” faz com que pertença a este grupo. “Mudam-se os personagens, mas não a trama que tece a história. A História vem sendo reescrita a ponto de tornar-se paródia”, comenta aquele que narra. Fruto de histórias de tempos passados e futuros (“Um dia vou retornar com os pássaros”), de fatos e causos, de ciência e de mitos, de verdades e de mentiras, o narrador-ser humano também é o narrador-autor. Maciel confirma sua presença atrás da personagem, quando justifica a sua obra: “Eu me propus a escrever um livro enciclopédico, mitológico e cosmogônico. Um romance do Universo, escrito por alguém que não é astrofísico. (...) O que narro encontra-se entre o que poderia ter sido dito e não foi, entre o que é dito e o que não é dito”.
Essa presença inesperada do escritor-ele mesmo, para em seguida prosseguir o relato da personagem remete a um tipo de paradoxo irreverente na literatura: até que ponto a história fictícia é real?; até que ponto o narrador fala por si mesmo? Exemplos não faltam de obras em que alguma personagem é o alterego de quem a escreve (como é caso da personagem Henry Chinaski, criada pelo escritor americano Charles Bukowski (1920-1994)) e Maciel reforça esta ideia ao questionar momentos que podem ter sido seus. Encontra-se aí a maneira mais simples de cumplicidade entre quem escreve e quem lê: compartilhar indiretamente o que se é; aceitar o que se recebe e incorporar um pouco daquilo a si próprio.
Há também a quebra de parâmetros ao se escrever um romance de 72 páginas, em que apenas as folhas do lado direito são preenchidas por textos. Estes, por sua vez, contém toda a profundidade necessárias para alguém que tece comentários sobre a sua espécie, seu mundo e sua vida. Os títulos de cada capítulo são frases retiradas do capítulo anterior, como se cada pequeno texto ali presente fosse uma parte de um todo universal e que precisasse ser costurado um a um para estar completo. Maciel, mais uma vez justifica-se: “(...) é bom ressaltar que a minha ideia é instaurar inovações formais para questionar a estrutura do romance. (...) Penso que não por casualidade a nossa época é a do conto, do romance breve, do testemunho autobiográfico (...).”
Talvez, este seja o livro das antíteses, onde frases e palavras opoem-se naturalmente umas às outras. Porém, há harmonia em suas negações afirmativas e a conclusão nunca é antagônica. A voz que pergunta, afirma e nega é a que sai de um narrador que nem sempre está ali. Estar e não estar presente. Pertencer e não pertencer. ‘Ser ou não ser, eis a questão’, diz o Hamlet de Shakespeare, título de um dos capítulos.