Cos'è?



mercoledì 14 luglio 2010

O silêncio que toca



Naquele momento, o rádio estava ligado e tocava silêncio. Notas flutuavam por toda aquela sala e rodeavam cada móvel, onde acabavam caindo dentro do vaso com margaridas secas de Dona Eulália, ou pousando no aparador do canto ou ainda, sentando-se na poltrona de Seu Alberto. As notas mais ousadas não se contentavam em permanecer por ali e seguiam em frente, rumo ao quarto de Pedrinho, à cozinha de Marieta, à garagem de Heitor; até mesmo a almofada da gata Lilás era tomada por elas! Quando chegavam o mais distante que podiam, as notas da música silêncio finalmente bailavam sossegadas ao se darem as mãos, deixando soar suavemente sua fina melodia.
Esta era de uma delicadeza extrema que podia ser sentida por todos os sentidos. Era de seu costume cutucar os ouvidos dos presentes, perfumar o olfato dos sensíveis, dar cores aos olhos curiosos e beliscar a pele dos que nela, porventura, esbarravam. O silêncio que ali tocava era melancólico e harmônico e todos paravam para escutá-lo. A música trazia pensamentos e estes, por sua vez, traziam sensações que nem sempre eram compartilhadas. Dona Eulália jogará fora suas margaridas secas com notas penduradas nos ramos, ao se lembrar, em breve, que flores novas deviam ser postas no vaso; Seu Alberto sentia que sua poltrona deixava de ser confortável e achou que o motivo devia-se ao seu uso constante; Pedrinho brincava com uma fila de carrinhos e não se deu conta de que não estava só; já Marieta, que fritava batatas para Pedrinho, sentiu de repente um arrepio e achou que fosse porque maio se aproximava, enquanto Heitor, deitado debaixo do carro, aspirava poeira e solidão. A gata Lilás era feliz naquele instante com todo aquele silêncio: sua almofada era um palco e ela, uma grande artista, que acompanhava nota por nota ao cantar com o seu ronrom.
E o rádio não parava de funcionar: uma, duas, três, quatro músicas. Cada silêncio tocado era único, com sinfonias próprias. Seus respectivos compositores eram grandes artistas e nunca desapontavam o público. A originalidade da música silêncio estava em sua letra, cantada como bem se entendesse. Os instrumentos variavam e seus interpretadores também. Não havia quem não soubesse cantá-la, não havia quem não soubesse tocá-la, não havia quem não a memorizasse.
Mas, algumas horas depois, o rádio da sala parou de tocar. Assim, de repente. Só um disco vazio ficou a dar voltas ininterruptas, a arranhar-se sozinho. Como a música havia acabado, as notas haviam todas se recolhido. Pouco a pouco, os moradores daquela casa deram-se conta disto e foram buscar outras atividades para preencher o dia. Agora, apenas um silêncio surdo-mudo pairava por ali.

lunedì 12 luglio 2010

A brevidade de um eterno adeus



Seis anos separaram aquele adeus, um adeus que nunca foi dado. Seis anos afastaram um encontro, um encontro que nunca aconteceu. Seis anos distanciaram uma existência, uma existência de contextos opostos e múltiplos paradoxos. Seis anos...
Um dia, seis anos após a partida dele, ela nasceu. E cresceu. E apaixonou-se por ele. Seis anos no tempo não impediram aquele amor, semeado com palavras, nutrido em versos. A poesia sobrevive ao tempo, sobrevive aos temporais, sobrevive ao corpo que a escreve. Não há lugar no mundo onde não possa estar, para assim, permanecer. Diante de tamanho atributo, a poesia dele permaneceu em estrofes escritas e versos cantados, em frases do avesso, que atingem o coração de moças enamoradas. Um galanteador, ele foi...
Surgiu décadas atrás nesta mesma pátria onde ela hoje habita, em uma época onde o mundo ainda era retratado em preto-e-branco. O poetinha de seu coração realizou para si muito do que ela sonha ainda em conquistar: escrever aqui, escrever ali, escrever, escrever, fazendo das palavras um instrumento de conquistas, de críticas, de vitórias, de desabafos... Seja em prosa ou em verso, na música ou no teatro, a palavra é o detalhe essencial e quando bem utilizada deixa de ser dita, para ser repetida. Repetida uma, duas, três vezes... “Vinícius, Vinícius”, ela o chama. Ele, lá do fim do infinito, responde em um pensamento:

Se você quer ser minha namorada
Ai, que linda namorada
Você poderia ser
Se quiser ser somente minha
Exatamente essa coisinha
Essa coisa toda minha
Que ninguém mais pode ser
Você tem que me fazer um juramento
De só ter um pensamento
Ser só minha até morrer
E também de não perder esse jeitinho
De falar devagarzinho
Essas histórias de você
E de repente me fazer muito carinho
E chorar bem de mansinho
Sem ninguém saber porquê
E se mais do que minha namorada
Você quer ser minha amada
Minha amada, mas amada pra valer
Aquela amada pelo amor predestinada
Sem a qual a vida é nada
Sem a qual se quer morrer
Você tem que vir comigo
Em meu caminho
E talvez o meu caminho
Seja triste pra você
Os seus olhos têm que ser só dos meus olhos
E os seus braços o meu ninho
No silêncio de depois
E você tem que ser a estrela derradeira
Minha amiga e companheira
No infinito de nós dois.


São 30 anos passados desde que ele se foi e deste período, pouco mais da metade é o tempo em que ela se fez cair de amores pela sua maneira tão peculiar de tratar o amor. Vinícius e seu coração tão sábio, tão cheio de paixão, ainda atinge a alma das moças, causando suspiros inclusive nas mais modernas, enchendo de boas lembranças as mais antigas, fervendo o sangue das mais ousadas. Vinícius, um romântico de todos os tempos, em que tudo passa, restando apenas o amor. E ela o espera na eternidade de suas palavras tão lindas.

O VELHO E A FLOR
(Vinícius de Moraes)

Por céus e mares eu andei,
Vi um poeta e vi um rei
Na esperança de saber
O que é o amor.

Ninguém sabia me dizer,
Eu já queria até morrer
Quando um velhinho
Com uma flor assim falou:

O amor é o carinho,
É o espinho que não se vê em cada flor.
É a vida quando
Chega sangrando aberta
em pétalas de amor.



*Vinícius de Moraes (1913-1980)

venerdì 25 giugno 2010

A wolf at the door


Quem são os lobos que nos rodeiam? Que matilha é essa e de onde vêm? Estão atrás da porta, estão por cima do telhado, estão dentro do guarda-roupa... prontos para dar um bote, prontos para atacar e rasgar nossas vísceras com seus finos dentes brancos, que apenas mastigam, enquanto seus pequenos olhos negros fitam impiedosamente o que restou de nós.
Mas eles não querem apenas a nossa carne: querem também a nossa alma! Querem cada pequeno detalhe daquilo que nos compõem; e querem as nossas coisas, os nossos familiares, os nossos amigos, os nossos mais profundos sonhos! Querem que fiquemos nus em algum caminho perdido e lá, em nosso abandono, olharão em nossos olhos uma última vez, como a nos dizer secamente: “adeus!”.
Os lobos que nos rodeiam são dóceis e frágeis e nunca nos dizem não. Seus uivos agudos grudam em nossos ouvidos e chegam até nossas cabeças, onde ficam a girar; somos aprisionados por dentro. Por incontáveis momentos eles ousam segurar as nossas mãos e as apertam com ternura e firmeza, enquanto entrelaçam suas finas garras em nossos dedos de pó. Para eles, o consolo é a primeira das armas, que apenas arranha, sem causar cicatrizes, enquanto a confiança, sim, é a maior de todas: está sempre na posição certa, com a mira exata para atirar e nos fazer cair, até estrebucharmos no chão. Nosso sangue tem gosto doce e um perfume suave.
A música dos lobos ainda toca e entre uivos e gemidos eles dançam a passos leves, saltitando de lá para cá. Suas roupas pretas, suas máscaras delicadas e suas longas capas criam um efeito mágico em suas coreografias: o rodopio é tão mais suave, os gestos tão mais precisos e a ocupação do palco tão mais completa e espontânea. Os lobos nos enganam com seus espetáculos e nós, suas presas tão fáceis, nos levantamos para aplaudi-los de pé, para depois sermos devorados no mesmo compasso por tais artistas; fomos ingenuamente derrotados. A cortina se fecha e por trás dela, os lobos continuam a ensaiar sua próxima peça. De onde vem essa matilha? Para onde partirá?

A Wolf at the Door- (Thom Yorke) Radiohead

Drag him out your window
Dragging out the dead
Singing "I miss you"
Snakes and ladders
Flip the lid
Out pops the cracker
Snaps you in the head
Knifes you in the neck
Kicks you in the teeth
Steel toe caps
Takes all your credit cards
Get up, get the gunge
Get the eggs
Get the flan in the face
The flan in the face
The flan in the face
Dance you fucker, dance you fucker
Don't you dare
Don't you dare
Don't you flan in the face
Take it with the love is given
Take it with a pinch of salt
Take it to the taxman
Let me back let me back
I promise to be good
Don't look in the mirror
At the face you don't recognize
Help me call the doctor
Put me inside
Put me inside
Put me inside
Put me inside
Put me inside

I keep the wolf from the door
But he calls me up
Calls me on the phone
Tells me all the ways that he's gonna mess me up
Steal all my children
If I don't pay the ransom
But I'll never see 'em again
If I squeal to the cops

No, no, no...
Walking like giant cranes
Ah, with my X-ray eyes I strip her naked
In a tight little world, why are you on the list?
Stepford wives, who are we to complain?
Investments and dealers, investments and dealers
Cold wives and mistresses
Cold wives and sunday papers
City boys in first class
Don't know we're born little
Someone else is going to come and clean it up
Born and raised for the job
Someone always does, always pick it up
Get over, get up, get over
Turn the tape off

I keep the wolf from the door
But he calls me up
Calls me on the phone
Tells me all the ways that he's gonna mess me up
Steal all my children
If I don't pay the ransom
And I'll never see 'em again
If I squeal to the cops

So I'm just gonna...

lunedì 21 giugno 2010

Crepúsculo


Não lhe restam mais forças para lutar. Se entregar? Talvez. Sentia que ia caindo gradativamente, declinando, declinando, declinando... Mas ainda não se encontrava em uma posição horizontal. Ao seu redor, era como se o céu acompanhasse-lhe o sofrimento e tingisse a sua ferida aberta como carne; vermelho que risca, corta e marca.
Os minutos passam devagar para que se chegue ao final da batalha, mas de forma rápida demais para se possa ter alguma reação contra o inimigo. O silêncio da disputa é insuportável: não há gritos, nem lamentos, nem vibrações. Apenas uma voz calada envolvendo os adversários e cobrindo-lhes de mistério e de agonia. As cores da ferida vão mudando de tonalidade, como se estivessem a ser cozidas: tornam-se amareladas, púrpuras, amarronzadas... E ele continua a cair, a ir flutuando, descendo até onde se possa enxergar e de repente, pesa sobre o horizonte.
É o fim. Ele perdeu. Ficará sepultado no pico de alguma montanha ou no fim de algum mar. Sombras pairam sobre a Terra para carregar-lhe a alma que lhe resta e com ela em mãos, passeiam por entre ruas, becos e labirintos. As sombras usam máscaras e nunca mostram o seu rosto; apenas derrubam o seu inimigo para sentirem-se poderosas por toda uma noite.

venerdì 18 giugno 2010

A Fuga de Pulcinella


por: Gianni Rodari ("Fábulas Ao Telefone")
tradução: Bruna Galvão

Pulcinella era a marionete mais inquieta de todo o velho teatro. Tinha sempre que protestar, seja porque no momento do espetáculo preferira passear, seja porque seu manipulador concedera-lhe uma parte cômica, enquanto ele preferira uma dramática.
-Qualquer dia destes- dizia em segredo a Arlecchino- corto a corda*! E assim fez, mas não durante o dia. Uma noite, ao conseguir tomar posse de uma tesoura esquecida pelo manipulador das marionetes, cortou de um topo ao outro os fios que lhe prendiam a cabeça, as mãos e os pés e propôs a Arlecchino:
-Vem comigo.
Só que Arlecchino não queria saber de separar-se de Colombina e nem Pulcinella tinha a intenção de ir atrás daquela manhosa, que no teatro, tinha-lhe pregado cem mil peças.
–Irei sozinho! - decidiu. Lançou-se corajosamente rua a fora e pernas para que te quero!
“Que beleza -pensava ao correr- não sentir mais os puxões daqueles malditos fios em lugar nenhum. Que beleza meter o pé bem aonde se deseja”.
O mundo, para uma marionete solitária, é grande e terrível e habitado (especialmente à noite) por gatos ferozes, prontos a se confundirem com qualquer coisa que fuja como um rato, a qual se dá a caça. Pulcinella conseguiu convencer os gatos- que se metiam com um bom artista- e lorota após lorota, refugiou-se em um jardim, encostou-se em um pequeno muro e ali adormeceu.
Acordou com o nascer do sol e tinha fome. Porém, ao seu redor, até onde a vista alcançava, não havia mais do que cravos, tulipas, zínias e hortênsias.
-Paciência- falava para si Pulcinella e ao colher um cravo, começou a mastigar-lhe as pétalas com uma certa indiferença. Não era como comer uma bisteca grelhada ou um filé de peixe pérsico: as flores têm muito perfume e pouco sabor. Entretanto, para Pulcinella aquilo parecia o sabor da liberdade e, na segunda bocada, estava seguro de nunca ter provado comida mais deliciosa. Decidiu permanecer para sempre naquele jardim e assim o fez. Dormia sob uma grande magnólia, cujas duras folhas não temiam nem mesmo às fortes chuvas, e se nutria das flores: hoje um cravo, amanhã uma rosa. Pulcinella sonhava com montanhas de espaguetes e planícies de muçarelas, mas não se rendia. Tornava-se seco, seco, mas tão perfumado, que a todo instante abelhas pousavam em seu corpo para sugar-lhe o néctar e logo afastavam-se frustradas, pois não conseguiam afundar o ferrão na sua cabeça de madeira.
Veio o inverno. O jardim, agora sem flores, esperava a primeira nevasca e a pobre marionete não tinha mais nada para comer. Sem dedos que pudessem recomeçar a viagem: as suas pobres pernas de madeira não suportariam levá-lo para longe.
“Paciência,- falava para si Pulcinella- morrerei aqui. Não é um lugar feio para se morrer. Além do mais, morrerei livre: ninguém poderá prender um fio à minha cabeça, para me fazer dizer sim ou não.”
A primeira nevasca o sepultou abaixo de uma mórbida coberta branca.
Na primavera, naquele exato lugar, nasceu um cravo. Soterrado, calmo e feliz, Pulcinella pensava: “ Eis que acima da minha cabeça cresceu uma flor. Existe alguém mais feliz do que eu?”.
Porém, não estava morto, porque as marionetes de madeira não podem morrer. Ainda continua soterrado, só que ninguém sabe disto. Se vocês pretendem encontrá-lo, não amarrem nenhum fio em sua cabeça: aos reis e rainhas do teatro, este fio não incomoda, mas a ele, pode fazê-lo sofrer.


*cortar a corda: 'tagliare la corda'(no original) é uma expressão idiomática que significa “ir-se embora”. No texto é utilizada em forma de trocadilho, devido ao fato de Pulcinella ser uma marionete (consequentemente, presa por cordas).

Gianni Rodari, "Favole al telefono",Einaudi, 1962

venerdì 16 aprile 2010

A árvore de corações



Ainda era muito cedo no topo da mais distante colina quando o Homem-Azul levantou-se. Lavou o rosto, tomou uma xícara de chá de folhas de violetas e saiu a arrastar os pés para fora de sua moradia. Há mais de 3000 anos era assim: sua primeira atividade do dia era regar a árvore-de-corações. O regador já cheio desde a última noite fazia escorrer a água que dava vitalidade à árvore mais importante do mundo.
E como ele se satisfazia em ser o seu guardião! Cada gota que caía sobre as grossas raízes da árvore-de-corações era por ele admiradas! O Homem-Azul aspirava o perfume que saía daquela terra molhada e imaginava o trabalho de sugar aquele líquido que a sua linda árvore começava a fazer e que passava pelo caule, pelos galhos, pelos ramos, pelas folhas até chegar aos corações. Estes palpitavam com a água recebida e se avermelhavam ainda mais. Então, as folhas balançavam e sacudiam o vento e os cabelos do Homem-Azul, que sentia uma enorme felicidade.
Era de seu agrado sentar-se debaixo daquela sombra e escutar os corações da árvore que ainda batiam com a água. Eles faziam um tum-tum-tum suave e confortador, que não significava nada mais do que vida. Outras vezes, o Homem-Azul varria todas as pequenas folhas para longe das raízes, também afastando os corações que tinham parado de bater e que agora jaziam murchos no chão.
Um dia, estava o guardião da árvore-de-corações a tirar um cochilo, quando foi despertado por um forte aroma. Abriu primeiro um olho, depois o outro, as narinas a se dilatarem cada vez mais. “Conheço este cheiro”, pensava ele e se ergueu. Passou a vista ao redor, deu alguns passos, o cheiro a ficar cada vez mais forte e por trás de uma moita encontra um pequeno garotinho mortal.
-Quem é você? O que faz aqui? Não sabe que é proibido e perigoso vir aqui? Não sabe o que eu posso fazer com quem se aventura a vir espiar a árvore?- dizia furiosamente o Homem-Azul.
O garotinho o olhava com olhos arregalados e cílios trêmulos. Sua altura estava longe de atingir os joelhos do grande Homem-Azul, que de seus muitos centímetros acima o observava.
-Quantas perguntas juntas!- balbuciou o menino- Assim não saberei responder nenhuma delas.
O Homem-Azul pareceu irritar-se ainda mais. Agachou o quanto pode, tentando se equiparar ao tamanho do garoto e abriu bem a boca para falar:
-Quem é... você?!
-Sou uma criança- respondeu o garotinho.
-E o que uma criança faz?
-Brinca e também aprende.
Então, o Homem-Azul portou-se novamente em pé e não se dando muito por satisfeito, ainda perguntou:
-Só isto?
-Penso que sim- falou a criança.
-E o que significa brincar e aprender?
O pequeno menino, ainda muito assustado, contorceu um pouco os lábios e dentro de sua pequena sabedoria tentou explicar:
-Brincar significa explorar e aprender significa perguntar. Todas as crianças brincam e aprendem.
Muitas reflexões tomaram conta da mente do Homem-Azul. Ele se debruçou sobre o rastelo que usava para separar as folhas e os corações secos e seu olhar parou por alguns instantes. Subitamente, voltou a fitar o menino e a indagar:
-Se você é uma criança que brinca e aprende, como posso eu também aprender, se não sou uma criança, mas sim, um guardião da árvore-de-corações?
-Devem existir crianças grandes no mundo e você deve ser uma delas- disse prontamente o garotinho.
A partir daí, a criança explicou ao Homem-Azul que brincava de explorar o riacho perto de sua casa quando um som estranho chegou aos seus ouvidos e o levou a acompanhá-lo. A melodia ainda estava em sua cabeça e era como uma música leve e doce, que o embalou totalmente.
-Eu apenas segui o tum-tum-tum que o vento trazia e nada mais- disse ele.
O Homem-Azul não conseguia acreditar no que estava ouvindo. Era difícil para ele aceitar que as palpitações dos corações de sua árvore, no topo de tão alta colina, tão distante da vida mortal lá embaixo, pudessem ter chegado a algum lugar. A árvore-de-corações era o maior segredo de toda a humanidade e ele, o Homem-Azul, era o seu protetor. Era seu dever cuidar da mais perfeita planta da Terra e de preservar a sua essência.
-Agora que você está aqui, me diga, o que quer?
O menino já estava bem menos assustado com o Homem-Azul e sua voz infantil formou as seguintes palavras:
-Por que você só me pergunta? Aprender é divertido, mas brincar também é. Quero fazer isto, agora.
-Não sei como brincam as crianças mortais do lugar de onde você veio. Só sei que você não poderá explorar a árvore-de-corações. Esta é a minha tarefa!- respondeu o Homem-Azul e começou a varrer mais algumas folhas e a amontoar alguns corações.
O garotinho olhava o aspecto de cada coração caído ali no chão. Notou que eram em sua maioria bem pequenos, tão minúsculos quanto a palma de sua mão. Também observou a vivacidade dos que ainda se prendiam à árvore e de como batiam na mesma frequência. Uma forte vontade de subir por aqueles galhos tomou-lhe conta da mente. Devia ser muito bom poder apanhar um coração vermelho tal como ele fazia com as maçãs vermelhas do jardim de sua casa e tê-lo entre os dedos para depois prová-lo. Também devia ser bom se ali tivesse algum balanço, porque só assim ele poderia continuar ouvindo aquela melodia ao mesmo tempo em que voasse alto, alto.
As folhas da árvore-de-corações iam e vinham com o sopro da brisa. O Homem-Azul já não se importava tanto com a presença da criança e por isto, resolveu explicar-lhe:
-Cada um dos corações que estão nesta árvore refere-se a algum habitante do planeta. Os corações maiores são dos mais novos, que ainda têm a pureza em sua alma, enquanto que os menores são dos que viveram um pouco mais e que portanto, já tiveram a sua essência contaminada por mal-dizeres. Os corações no chão estão tão secos e sem vida quanto os velhos seus portadores: muito já viveram e muito já bateram e, de tanto viver e bater, se tornaram viciados em suas próprias atitudes, esquecendo-se de quão grandes e perfeitos um dia foram. A fraqueza e o cansaço tomaram conta deles. Assim acontecerá também com os corações agarrados aos galhos.
-No final, todos vão mesmo parar de bater e vão ao chão?- custava a acreditar o menino.
-Sim, este é o ciclo da árvore. Sem árvore não há corações e sem corações não há vida em outros lugares.
Pegou um coração morto e deu ao garoto. Este ficou a imaginar que estivesse segurando o seu próprio coração em um futuro muito distante. Era triste saber que lá de onde vinha, não havia sequer nenhuma árvore-de-corações. Por um instante pensou em um jardim de tais árvores e em quão maravilhosa música soaria dos tum-tum-tums de seus frutos. Apertou levemente o pobre coração sem vida e o guardou no bolso da calça.
O Homem-Azul o observava e também se entristeceu por só ele, o Homem-Azul, poder contemplar tão perfeita formosura em longuíssimos anos.
-Só um coração grande e forte pode bater por um velho. Talvez seja tempo de se dar uma nova chance aos antigos. Quem sabe não haverá um recomeço? Quem sabe não se possa ser criança e brincar e aprender?
Foi então que o menininho sentiu uma pontada no peito, uma dorzinha no seu grande coração. Eram saudades de sua casa, de seus pais e amigos, de seu riacho e de suas flores e animais. Uma canção distante e triste começou a soar de repente e estava longe, longe. Era um novo tum-tum-tum, só que desta vez, vindo de corações mais profundos e distantes. Decidiu que era hora de ir embora e despediu-se do Homem-Azul. Olhou a árvore-de-corações pela última vez e começou a seguir o novo som que o atraía. O Homem-Azul, ainda com o rastelo nas mãos, via aquele pequeno ser ir sumindo no horizonte, até desaparecer por completo. Ficou esperançoso que o menino jogasse o velho coração dentro de um amontoado de terra e o regasse com carinho, para que, quem sabe, uma nova árvore pudesse surgir e novos corações pudessem vibrar. Só assim, a batida que o garoto escutava, pararia.

venerdì 9 aprile 2010

Canção Outonal


Canção Outonal

Federico García Lorca


Hoje sinto no coração

um vago tremor de estrelas,

mas minha senda se perde

na alma da névoa.

A luz me quebra as asas

e a dor de minha tristeza

vai molhando as recordações

na fonte da ideia.

Todas as rosas são brancas,

tão brancas como minha pena,

e não são as rosas brancas

porque nevou sobre elas.

Antes tiveram o íris.

Também sobre a alma neva.

A neve da alma tem

copos de beijos e cenas

que se fundiram na sombra

ou na luz de quem as pensa.

A neve cai das rosas,

mas a da alma fica,

e a garra dos anos

faz um sudário com elas.

Desfazer-se-á a neve

quando a morte nos levar?

Ou depois haverá outra neve

e outras rosas mais perfeitas?

Haverá paz entre nós

como Cristo nos ensina?

Ou nunca será possível

a solução do problema?

E se o amor nos engana?

Quem a vida nos alenta

se o crepúsculo nos funde

na verdadeira ciência

do Bem que quiçá não exista,

e do mal que palpita perto?

Se a esperança se apaga

e a Babel começa,

que tocha iluminará

os caminhos da Terra?

Se o azul é um sonho,

que será da inocência?

Que será do coração

se o amor não tem flechas?

Se a morte é a morte,

que será dos poetas

e das coisas adormecidas

que já ninguém delas se recorda?

Oh! sol das esperanças!

Água clara! Lua nova!

Corações dos meninos!

Almas rudes das pedras!

Hoje sinto no coração um vago tremor de estrelas

e todas as coisas são

tão brancas como minha pena.



Passo a vida a perguntar. Pergunto aos outros, pergunto a mim, pergunto à noite. No final, nem sempre tenho todas as respostas que queria. Penso que nem todas as coisas têm suas respostas, assim como nem todas têm suas perguntas. O mistério existe e existirá. Resta a mim, mesmo assim, continuar indagando e refletindo; buscar outros caminhos que me levem a novos questionamentos. Ainda bem que existe a poesia. Ainda bem que existe o outono. Minha alma consegue sossego perante tais detalhes da vida.