Cos'è?



venerdì 25 giugno 2010

A wolf at the door


Quem são os lobos que nos rodeiam? Que matilha é essa e de onde vêm? Estão atrás da porta, estão por cima do telhado, estão dentro do guarda-roupa... prontos para dar um bote, prontos para atacar e rasgar nossas vísceras com seus finos dentes brancos, que apenas mastigam, enquanto seus pequenos olhos negros fitam impiedosamente o que restou de nós.
Mas eles não querem apenas a nossa carne: querem também a nossa alma! Querem cada pequeno detalhe daquilo que nos compõem; e querem as nossas coisas, os nossos familiares, os nossos amigos, os nossos mais profundos sonhos! Querem que fiquemos nus em algum caminho perdido e lá, em nosso abandono, olharão em nossos olhos uma última vez, como a nos dizer secamente: “adeus!”.
Os lobos que nos rodeiam são dóceis e frágeis e nunca nos dizem não. Seus uivos agudos grudam em nossos ouvidos e chegam até nossas cabeças, onde ficam a girar; somos aprisionados por dentro. Por incontáveis momentos eles ousam segurar as nossas mãos e as apertam com ternura e firmeza, enquanto entrelaçam suas finas garras em nossos dedos de pó. Para eles, o consolo é a primeira das armas, que apenas arranha, sem causar cicatrizes, enquanto a confiança, sim, é a maior de todas: está sempre na posição certa, com a mira exata para atirar e nos fazer cair, até estrebucharmos no chão. Nosso sangue tem gosto doce e um perfume suave.
A música dos lobos ainda toca e entre uivos e gemidos eles dançam a passos leves, saltitando de lá para cá. Suas roupas pretas, suas máscaras delicadas e suas longas capas criam um efeito mágico em suas coreografias: o rodopio é tão mais suave, os gestos tão mais precisos e a ocupação do palco tão mais completa e espontânea. Os lobos nos enganam com seus espetáculos e nós, suas presas tão fáceis, nos levantamos para aplaudi-los de pé, para depois sermos devorados no mesmo compasso por tais artistas; fomos ingenuamente derrotados. A cortina se fecha e por trás dela, os lobos continuam a ensaiar sua próxima peça. De onde vem essa matilha? Para onde partirá?

A Wolf at the Door- (Thom Yorke) Radiohead

Drag him out your window
Dragging out the dead
Singing "I miss you"
Snakes and ladders
Flip the lid
Out pops the cracker
Snaps you in the head
Knifes you in the neck
Kicks you in the teeth
Steel toe caps
Takes all your credit cards
Get up, get the gunge
Get the eggs
Get the flan in the face
The flan in the face
The flan in the face
Dance you fucker, dance you fucker
Don't you dare
Don't you dare
Don't you flan in the face
Take it with the love is given
Take it with a pinch of salt
Take it to the taxman
Let me back let me back
I promise to be good
Don't look in the mirror
At the face you don't recognize
Help me call the doctor
Put me inside
Put me inside
Put me inside
Put me inside
Put me inside

I keep the wolf from the door
But he calls me up
Calls me on the phone
Tells me all the ways that he's gonna mess me up
Steal all my children
If I don't pay the ransom
But I'll never see 'em again
If I squeal to the cops

No, no, no...
Walking like giant cranes
Ah, with my X-ray eyes I strip her naked
In a tight little world, why are you on the list?
Stepford wives, who are we to complain?
Investments and dealers, investments and dealers
Cold wives and mistresses
Cold wives and sunday papers
City boys in first class
Don't know we're born little
Someone else is going to come and clean it up
Born and raised for the job
Someone always does, always pick it up
Get over, get up, get over
Turn the tape off

I keep the wolf from the door
But he calls me up
Calls me on the phone
Tells me all the ways that he's gonna mess me up
Steal all my children
If I don't pay the ransom
And I'll never see 'em again
If I squeal to the cops

So I'm just gonna...

lunedì 21 giugno 2010

Crepúsculo


Não lhe restam mais forças para lutar. Se entregar? Talvez. Sentia que ia caindo gradativamente, declinando, declinando, declinando... Mas ainda não se encontrava em uma posição horizontal. Ao seu redor, era como se o céu acompanhasse-lhe o sofrimento e tingisse a sua ferida aberta como carne; vermelho que risca, corta e marca.
Os minutos passam devagar para que se chegue ao final da batalha, mas de forma rápida demais para se possa ter alguma reação contra o inimigo. O silêncio da disputa é insuportável: não há gritos, nem lamentos, nem vibrações. Apenas uma voz calada envolvendo os adversários e cobrindo-lhes de mistério e de agonia. As cores da ferida vão mudando de tonalidade, como se estivessem a ser cozidas: tornam-se amareladas, púrpuras, amarronzadas... E ele continua a cair, a ir flutuando, descendo até onde se possa enxergar e de repente, pesa sobre o horizonte.
É o fim. Ele perdeu. Ficará sepultado no pico de alguma montanha ou no fim de algum mar. Sombras pairam sobre a Terra para carregar-lhe a alma que lhe resta e com ela em mãos, passeiam por entre ruas, becos e labirintos. As sombras usam máscaras e nunca mostram o seu rosto; apenas derrubam o seu inimigo para sentirem-se poderosas por toda uma noite.

venerdì 18 giugno 2010

A Fuga de Pulcinella


por: Gianni Rodari ("Fábulas Ao Telefone")
tradução: Bruna Galvão

Pulcinella era a marionete mais inquieta de todo o velho teatro. Tinha sempre que protestar, seja porque no momento do espetáculo preferira passear, seja porque seu manipulador concedera-lhe uma parte cômica, enquanto ele preferira uma dramática.
-Qualquer dia destes- dizia em segredo a Arlecchino- corto a corda*! E assim fez, mas não durante o dia. Uma noite, ao conseguir tomar posse de uma tesoura esquecida pelo manipulador das marionetes, cortou de um topo ao outro os fios que lhe prendiam a cabeça, as mãos e os pés e propôs a Arlecchino:
-Vem comigo.
Só que Arlecchino não queria saber de separar-se de Colombina e nem Pulcinella tinha a intenção de ir atrás daquela manhosa, que no teatro, tinha-lhe pregado cem mil peças.
–Irei sozinho! - decidiu. Lançou-se corajosamente rua a fora e pernas para que te quero!
“Que beleza -pensava ao correr- não sentir mais os puxões daqueles malditos fios em lugar nenhum. Que beleza meter o pé bem aonde se deseja”.
O mundo, para uma marionete solitária, é grande e terrível e habitado (especialmente à noite) por gatos ferozes, prontos a se confundirem com qualquer coisa que fuja como um rato, a qual se dá a caça. Pulcinella conseguiu convencer os gatos- que se metiam com um bom artista- e lorota após lorota, refugiou-se em um jardim, encostou-se em um pequeno muro e ali adormeceu.
Acordou com o nascer do sol e tinha fome. Porém, ao seu redor, até onde a vista alcançava, não havia mais do que cravos, tulipas, zínias e hortênsias.
-Paciência- falava para si Pulcinella e ao colher um cravo, começou a mastigar-lhe as pétalas com uma certa indiferença. Não era como comer uma bisteca grelhada ou um filé de peixe pérsico: as flores têm muito perfume e pouco sabor. Entretanto, para Pulcinella aquilo parecia o sabor da liberdade e, na segunda bocada, estava seguro de nunca ter provado comida mais deliciosa. Decidiu permanecer para sempre naquele jardim e assim o fez. Dormia sob uma grande magnólia, cujas duras folhas não temiam nem mesmo às fortes chuvas, e se nutria das flores: hoje um cravo, amanhã uma rosa. Pulcinella sonhava com montanhas de espaguetes e planícies de muçarelas, mas não se rendia. Tornava-se seco, seco, mas tão perfumado, que a todo instante abelhas pousavam em seu corpo para sugar-lhe o néctar e logo afastavam-se frustradas, pois não conseguiam afundar o ferrão na sua cabeça de madeira.
Veio o inverno. O jardim, agora sem flores, esperava a primeira nevasca e a pobre marionete não tinha mais nada para comer. Sem dedos que pudessem recomeçar a viagem: as suas pobres pernas de madeira não suportariam levá-lo para longe.
“Paciência,- falava para si Pulcinella- morrerei aqui. Não é um lugar feio para se morrer. Além do mais, morrerei livre: ninguém poderá prender um fio à minha cabeça, para me fazer dizer sim ou não.”
A primeira nevasca o sepultou abaixo de uma mórbida coberta branca.
Na primavera, naquele exato lugar, nasceu um cravo. Soterrado, calmo e feliz, Pulcinella pensava: “ Eis que acima da minha cabeça cresceu uma flor. Existe alguém mais feliz do que eu?”.
Porém, não estava morto, porque as marionetes de madeira não podem morrer. Ainda continua soterrado, só que ninguém sabe disto. Se vocês pretendem encontrá-lo, não amarrem nenhum fio em sua cabeça: aos reis e rainhas do teatro, este fio não incomoda, mas a ele, pode fazê-lo sofrer.


*cortar a corda: 'tagliare la corda'(no original) é uma expressão idiomática que significa “ir-se embora”. No texto é utilizada em forma de trocadilho, devido ao fato de Pulcinella ser uma marionete (consequentemente, presa por cordas).

Gianni Rodari, "Favole al telefono",Einaudi, 1962

venerdì 16 aprile 2010

A árvore de corações



Ainda era muito cedo no topo da mais distante colina quando o Homem-Azul levantou-se. Lavou o rosto, tomou uma xícara de chá de folhas de violetas e saiu a arrastar os pés para fora de sua moradia. Há mais de 3000 anos era assim: sua primeira atividade do dia era regar a árvore-de-corações. O regador já cheio desde a última noite fazia escorrer a água que dava vitalidade à árvore mais importante do mundo.
E como ele se satisfazia em ser o seu guardião! Cada gota que caía sobre as grossas raízes da árvore-de-corações era por ele admiradas! O Homem-Azul aspirava o perfume que saía daquela terra molhada e imaginava o trabalho de sugar aquele líquido que a sua linda árvore começava a fazer e que passava pelo caule, pelos galhos, pelos ramos, pelas folhas até chegar aos corações. Estes palpitavam com a água recebida e se avermelhavam ainda mais. Então, as folhas balançavam e sacudiam o vento e os cabelos do Homem-Azul, que sentia uma enorme felicidade.
Era de seu agrado sentar-se debaixo daquela sombra e escutar os corações da árvore que ainda batiam com a água. Eles faziam um tum-tum-tum suave e confortador, que não significava nada mais do que vida. Outras vezes, o Homem-Azul varria todas as pequenas folhas para longe das raízes, também afastando os corações que tinham parado de bater e que agora jaziam murchos no chão.
Um dia, estava o guardião da árvore-de-corações a tirar um cochilo, quando foi despertado por um forte aroma. Abriu primeiro um olho, depois o outro, as narinas a se dilatarem cada vez mais. “Conheço este cheiro”, pensava ele e se ergueu. Passou a vista ao redor, deu alguns passos, o cheiro a ficar cada vez mais forte e por trás de uma moita encontra um pequeno garotinho mortal.
-Quem é você? O que faz aqui? Não sabe que é proibido e perigoso vir aqui? Não sabe o que eu posso fazer com quem se aventura a vir espiar a árvore?- dizia furiosamente o Homem-Azul.
O garotinho o olhava com olhos arregalados e cílios trêmulos. Sua altura estava longe de atingir os joelhos do grande Homem-Azul, que de seus muitos centímetros acima o observava.
-Quantas perguntas juntas!- balbuciou o menino- Assim não saberei responder nenhuma delas.
O Homem-Azul pareceu irritar-se ainda mais. Agachou o quanto pode, tentando se equiparar ao tamanho do garoto e abriu bem a boca para falar:
-Quem é... você?!
-Sou uma criança- respondeu o garotinho.
-E o que uma criança faz?
-Brinca e também aprende.
Então, o Homem-Azul portou-se novamente em pé e não se dando muito por satisfeito, ainda perguntou:
-Só isto?
-Penso que sim- falou a criança.
-E o que significa brincar e aprender?
O pequeno menino, ainda muito assustado, contorceu um pouco os lábios e dentro de sua pequena sabedoria tentou explicar:
-Brincar significa explorar e aprender significa perguntar. Todas as crianças brincam e aprendem.
Muitas reflexões tomaram conta da mente do Homem-Azul. Ele se debruçou sobre o rastelo que usava para separar as folhas e os corações secos e seu olhar parou por alguns instantes. Subitamente, voltou a fitar o menino e a indagar:
-Se você é uma criança que brinca e aprende, como posso eu também aprender, se não sou uma criança, mas sim, um guardião da árvore-de-corações?
-Devem existir crianças grandes no mundo e você deve ser uma delas- disse prontamente o garotinho.
A partir daí, a criança explicou ao Homem-Azul que brincava de explorar o riacho perto de sua casa quando um som estranho chegou aos seus ouvidos e o levou a acompanhá-lo. A melodia ainda estava em sua cabeça e era como uma música leve e doce, que o embalou totalmente.
-Eu apenas segui o tum-tum-tum que o vento trazia e nada mais- disse ele.
O Homem-Azul não conseguia acreditar no que estava ouvindo. Era difícil para ele aceitar que as palpitações dos corações de sua árvore, no topo de tão alta colina, tão distante da vida mortal lá embaixo, pudessem ter chegado a algum lugar. A árvore-de-corações era o maior segredo de toda a humanidade e ele, o Homem-Azul, era o seu protetor. Era seu dever cuidar da mais perfeita planta da Terra e de preservar a sua essência.
-Agora que você está aqui, me diga, o que quer?
O menino já estava bem menos assustado com o Homem-Azul e sua voz infantil formou as seguintes palavras:
-Por que você só me pergunta? Aprender é divertido, mas brincar também é. Quero fazer isto, agora.
-Não sei como brincam as crianças mortais do lugar de onde você veio. Só sei que você não poderá explorar a árvore-de-corações. Esta é a minha tarefa!- respondeu o Homem-Azul e começou a varrer mais algumas folhas e a amontoar alguns corações.
O garotinho olhava o aspecto de cada coração caído ali no chão. Notou que eram em sua maioria bem pequenos, tão minúsculos quanto a palma de sua mão. Também observou a vivacidade dos que ainda se prendiam à árvore e de como batiam na mesma frequência. Uma forte vontade de subir por aqueles galhos tomou-lhe conta da mente. Devia ser muito bom poder apanhar um coração vermelho tal como ele fazia com as maçãs vermelhas do jardim de sua casa e tê-lo entre os dedos para depois prová-lo. Também devia ser bom se ali tivesse algum balanço, porque só assim ele poderia continuar ouvindo aquela melodia ao mesmo tempo em que voasse alto, alto.
As folhas da árvore-de-corações iam e vinham com o sopro da brisa. O Homem-Azul já não se importava tanto com a presença da criança e por isto, resolveu explicar-lhe:
-Cada um dos corações que estão nesta árvore refere-se a algum habitante do planeta. Os corações maiores são dos mais novos, que ainda têm a pureza em sua alma, enquanto que os menores são dos que viveram um pouco mais e que portanto, já tiveram a sua essência contaminada por mal-dizeres. Os corações no chão estão tão secos e sem vida quanto os velhos seus portadores: muito já viveram e muito já bateram e, de tanto viver e bater, se tornaram viciados em suas próprias atitudes, esquecendo-se de quão grandes e perfeitos um dia foram. A fraqueza e o cansaço tomaram conta deles. Assim acontecerá também com os corações agarrados aos galhos.
-No final, todos vão mesmo parar de bater e vão ao chão?- custava a acreditar o menino.
-Sim, este é o ciclo da árvore. Sem árvore não há corações e sem corações não há vida em outros lugares.
Pegou um coração morto e deu ao garoto. Este ficou a imaginar que estivesse segurando o seu próprio coração em um futuro muito distante. Era triste saber que lá de onde vinha, não havia sequer nenhuma árvore-de-corações. Por um instante pensou em um jardim de tais árvores e em quão maravilhosa música soaria dos tum-tum-tums de seus frutos. Apertou levemente o pobre coração sem vida e o guardou no bolso da calça.
O Homem-Azul o observava e também se entristeceu por só ele, o Homem-Azul, poder contemplar tão perfeita formosura em longuíssimos anos.
-Só um coração grande e forte pode bater por um velho. Talvez seja tempo de se dar uma nova chance aos antigos. Quem sabe não haverá um recomeço? Quem sabe não se possa ser criança e brincar e aprender?
Foi então que o menininho sentiu uma pontada no peito, uma dorzinha no seu grande coração. Eram saudades de sua casa, de seus pais e amigos, de seu riacho e de suas flores e animais. Uma canção distante e triste começou a soar de repente e estava longe, longe. Era um novo tum-tum-tum, só que desta vez, vindo de corações mais profundos e distantes. Decidiu que era hora de ir embora e despediu-se do Homem-Azul. Olhou a árvore-de-corações pela última vez e começou a seguir o novo som que o atraía. O Homem-Azul, ainda com o rastelo nas mãos, via aquele pequeno ser ir sumindo no horizonte, até desaparecer por completo. Ficou esperançoso que o menino jogasse o velho coração dentro de um amontoado de terra e o regasse com carinho, para que, quem sabe, uma nova árvore pudesse surgir e novos corações pudessem vibrar. Só assim, a batida que o garoto escutava, pararia.

venerdì 9 aprile 2010

Canção Outonal


Canção Outonal

Federico García Lorca


Hoje sinto no coração

um vago tremor de estrelas,

mas minha senda se perde

na alma da névoa.

A luz me quebra as asas

e a dor de minha tristeza

vai molhando as recordações

na fonte da ideia.

Todas as rosas são brancas,

tão brancas como minha pena,

e não são as rosas brancas

porque nevou sobre elas.

Antes tiveram o íris.

Também sobre a alma neva.

A neve da alma tem

copos de beijos e cenas

que se fundiram na sombra

ou na luz de quem as pensa.

A neve cai das rosas,

mas a da alma fica,

e a garra dos anos

faz um sudário com elas.

Desfazer-se-á a neve

quando a morte nos levar?

Ou depois haverá outra neve

e outras rosas mais perfeitas?

Haverá paz entre nós

como Cristo nos ensina?

Ou nunca será possível

a solução do problema?

E se o amor nos engana?

Quem a vida nos alenta

se o crepúsculo nos funde

na verdadeira ciência

do Bem que quiçá não exista,

e do mal que palpita perto?

Se a esperança se apaga

e a Babel começa,

que tocha iluminará

os caminhos da Terra?

Se o azul é um sonho,

que será da inocência?

Que será do coração

se o amor não tem flechas?

Se a morte é a morte,

que será dos poetas

e das coisas adormecidas

que já ninguém delas se recorda?

Oh! sol das esperanças!

Água clara! Lua nova!

Corações dos meninos!

Almas rudes das pedras!

Hoje sinto no coração um vago tremor de estrelas

e todas as coisas são

tão brancas como minha pena.



Passo a vida a perguntar. Pergunto aos outros, pergunto a mim, pergunto à noite. No final, nem sempre tenho todas as respostas que queria. Penso que nem todas as coisas têm suas respostas, assim como nem todas têm suas perguntas. O mistério existe e existirá. Resta a mim, mesmo assim, continuar indagando e refletindo; buscar outros caminhos que me levem a novos questionamentos. Ainda bem que existe a poesia. Ainda bem que existe o outono. Minha alma consegue sossego perante tais detalhes da vida.


lunedì 1 marzo 2010

O dia seguinte ao fim do mundo


Anunciaram o fim do mundo. Em todas as capas de jornais vê-se escrito: “Mundo acaba” (Le Monde), “Destruição no planeta é a maior de todos os tempos” (Folha de S.Paulo), “Planeta Terra chega ao fim” (O Estado de S.Paulo), “Os maias estavam certos” (The New York Times). Na televisão são constantes as imagens de crateras gigantes, de entulhos de tamanhos monstruosos, além de pilhas e pilhas de corpos humanos e animais... Nada de plantas, nada de rios, nada de nada. Na Internet, a notícia também é a mesma: “Destruição causada pelo fim do mundo deixa o planeta sem vida” ou ainda “É incontável o número de mortos com o fim da Terra”.
E assim, a cada minuto que passa, este é o único assunto a ser divulgado; afinal, perdeu-se o sentido de se tratar do “caso Arruda”, da candidatura da Dilma à presidência, de vitórias do Corinthians ou de lançamentos de filmes, livros e cd’s. Obviamente que este é um tema a ser esgotado pelos veículos de comunicação, como todos nós sabemos. É de se esperar que em grandes catástrofes, em grandes escândalos ou em qualquer outra coisa que renda ‘pano para manga’, como diziam muitas das vovós, a mídia aborde, mostre, comente e até aumente muitos dos fatos. Com a morte do Michael Jackson foi assim; com os terremotos no Haiti e no Chile também (isto, sem contar as enchentes no começo do ano de 2010), com a vitória de Obama nas eleições americanas e de Lula no Brasil há uns anos, idem, e assim por diante... Subitamente surge uma quantidade enorme de repórteres com suas câmeras de vídeo ou de fotografia, com seus microfones e gravadores, com seus papéis e canetas. Estão todos a rodear o fato e dispostos até mesmo a devorá-lo se for possível, para em seguida, vomitá-lo em longos jatos de informações agressivas . O fim do mundo é que não podia ficar de fora de tamanha pauta!
Aliás, muito antes de se pensar na criação da imprensa, do jornalismo e seus veículos, e nas agências de notícias, um povo habitante da América Central já previa destruições (há os que digam apenas “fortes mudanças”) no planeta: eram os maias. O tão esperado “fim do mundo” previsto para o ano de 2012 e que fora antecipado por eles, realmente aconteceu. Mesmo não sendo na data e no ano alertados e nem sabendo se foi o sol que recebeu uma forte luz da galáxia, provocando mudanças magnéticas (como eles justificavam ser um dos motivos), o mundo acabou e pronto! As evidências já vinham há muito tempo: um tsumani aqui, um terremoto ali, outro lá, uma forte nevasca nos países do norte, uma tempestade devastadora em ilhas ou em países tropicais, longas secas, muitas enchentes. Eram tantos os sinais da natureza que de repente, parece que todos se acostumaram com isto: “O quê? Terremoto no Chile?”, “Mas outro dia não teve no Haiti?”, “Terremoto de novo? Já me cansei deste assunto” e assim, viraram a página ou mudaram de canal -até porque, desta vez os estragos nem foram tão grandes assim...
Leio em meus jornais a respeito da “maior catástrofe que já pairou sobre a Terra”, como anunciam as mídias sensacionalistas. Noto que querem achar os culpados -sempre tem que haver um nome para se acusar- e desta maneira, os primeiros a entrarem na lista são a civilização maia. E haja contestações em cima dos pobres habitantes indígenas centro-americanos! O problema é que, como eles constituíam uma pequena população em países como México, Honduras, Guatemala e El Salvador até a poucos instantes do mundo ir para os ares, não há mais como colher suas versões do fato (lembrando que um dos princípios básicos do jornalismo é sempre “ouvir o outro lado”). Se resolverem culpar de ira qualquer deus em qualquer religião, também cairão no mesmo entrave dos maias; se jogarem a culpa no “aquecimento global” (qualquer mudança mínima na natureza era culpa do tal do aquecimento global- o El Niño perdera seu posto faz tempo!) também não terão quem responda por ele. Talvez, o Chávez, o governo da Coréia do Norte ou ainda o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, sejam boas saídas para o caso: quem sabe, eles não sobreviveram à catástrofe? -afinal, se o Bin Laden deu um “jeitinho” de se “esconder” dos Estados Unidos, eles também podem ter dado um jeito de continuar vivendo- como por exemplo, proibindo o fim do mundo em seus respectivos países.
Ainda não sei onde vão dar as apurações da imprensa. Porém sei que ainda verei paisagens totalmente destruídas por um bom tempo. Também terei que andar pelas ruas no meio de tamanho caos e certamente, irei me deparar com algum jornalista pronto a apanhar meu depoimento sobre o caso. Mas um detalhe me consola e me faz lamentar ao mesmo tempo: o fato de que quando o mundo renascer, as notícias não serão maçantes, pois dificilmente um fato positivo vira notícia. Em uma probabilidade remota lerei nas manchetes de qualquer jornal: “Início do mundo é marcado por crescimentos em todo o planeta”.

mercoledì 3 febbraio 2010

Maçã do Amor

A noite pesa sobre a cidade que adormece há muito tempo. No vigésimo terceiro andar de um prédio na Rua das Azaléias, uma luz amarelada emoldura a janela de um dos cômodos de um apartamento. Visto de longe, o lugar parece um pequeno vaga-lume a se destacar na escuridão. Lá dentro está Lia, vestida com calças de moletom, blusa apertada sem mangas e com um grande e fofo chinelo nos pés. Está a pensar em sua vida: em como era antes de Otávio e em como é agora, depois dele. De súbito, Lia acha que deve analisá-la em três partes completas: no antes, no durante e no depois.
Mas aonde a garota quer chegar com isto? Ela sabe que independentemente de sua conclusão, o que de fato valerá é que nada disto mudará em nenhum detalhe a sua vida. Otávio se foi. Antes dele, Augusto se foi também, assim como Márcio, Pedro, Luís e Cláudio se foram por sua vez. Cada qual a sua maneira deixou em Lia, marcas. Algumas destas são lembranças, outras são feridas e outras, nada mais do que palavras. Ah, mas o Otávio...
Otávio, o último namorado de sua vida até então. O último a quem Lia amou, mas o primeiro a que lhe vem à cabeça, agora. Otávio está a roubar-lhe os pensamentos, está tirando-lhe o sono, o sossego, a paz. Otávio, Otávio. Lia revira-se no sofá, abraça a almofada, suspira, fecha os olhos. “O que é mais importante: o primeiro amor, que fez nossos sentimentos brotarem ou o último amor, que ainda brota em nós, sentimentos?”. O último amor, sempre...
É por ele que Lia se debate, é por ele que seu coração se contorce. Otávio se foi e com ele, foram-se também os sonhos, os planos e a paixão. Não importa se depois dele virão o Antônio, o Júlio ou o Fábio... Lia sequer pensa nisto. O presente dói, o passado é mágico e o futuro é duvidoso. Em cima da mesa da cozinha, uma maçã mordida: vermelha e viva como a paixão. Uma maçã do amor. Otávio arrancou-lhe um pedaço com os dentes. Mordeu, mastigou e engoliu aquela pequena parte. Depois, abriu a porta da sala e saiu...sem mais voltar. Lia ficou naquele instante sozinha, desamparada, as lágrimas a molharem seus poros da face. Otávio, sem piedade, triturou em pedacinhos aquele amor. Agora, a marca de sua mordida estava ali, a amarelar-se com o passar do tempo. Ficará tão velha e murcha como as outras antigas lembranças. A maçã do amor foi atacada e minuto a minuto vai desbotando a sua cor. Nela, Lia ainda vê a sua parte em tonalidades fortes e brilhantes. De Otávio sobrou apenas a marca de sua boca, a saliva de seu beijo, o sabor de seu desamor.